Hoje, na Ilha de Santiago, cidade da Praia, um homem sente-se recompensado pelo que a vida lhe ofereceu. Sacrificou-se pela Medicina e por uma ética de trabalho que o levou a ser pioneiro no transplante renal. Cresceu na ideia do respeito pelo nome que carregava.Sobrinho-neto do primeiro “general sem medo” de Salazar, António Norton de Matos começou por fazer serviço médico na periferia, em Melgaço. Não houve casa que não conhecesse e pessoa com quem não brindasse.Fez carreira no Santo António, hospital onde salvou centenas de pessoas de uma vida mais breve do que aquela que poderiam ambicionar — fez o primeiro transplante realizado no Porto, há 43 anos..António recorda bem o primeiro e o segundo e o terceiro. Depois, culpa do sucesso, tornou-se difícil acompanhar o ritmo dos que tiveram sorte. Recorda melhor as operações que não correram bem, é sempre mais fácil lembrarmo-nos do que não cumprimos.O cirurgião tem 77 anos. Está reformado, mas continua a operar. E a ser mitificado pelos colegas e por cabo-verdianos que, quando o veem na rua, vão ao seu encontro, como se fosse Ronaldo. Agradecem-lhe, abraçam-nos, sorriem.Fará hoje, com uma equipa do Santo António, o primeiro transplante renal em Cabo Verde. Durante uma década fez deste objetivo o último sonho da sua vida e concretizou-o com o apoio dos Governos português e cabo-verdiano. Um homem de meia-idade será o primeiro a ser salvo por este anjo sem asas.O sobrinho-neto de um general a quem a vida ofereceu a possibilidade de ser maior.