Escreveu, realizou e lutou pela liberdade. Ganhou prémios, foi nomeada para Óscares, revolucionou a banda desenhada, foi mestre no cinema de animação e revoltou-se com a morte de um tio assassinado num calabouço de presos políticos em Teerão.Tinha 14 anos quando os pais a mandaram para Viena onde ficou em casa de amigos. Fez o liceu, viveu com grandes dificuldades, regressou ao Irão, casou-se jovem, separou-se em pouco tempo, fugiu para Paris e trabalhou no que havia até conseguir mostrar o seu talento de ilustradora de livros infantis.. Num dia igual aos outros, viu numa rua perto da Sorbonne um jovem alto e distinto com olhos inteligentes. Acabara de chegar a Paris, era sueco, estudante de Economia, chamava-se Mattias e beijaram-se na primeira noite. No verão seguinte trocaram alianças em Estocolmo. Foi uma anacrónica e feliz história de amor, um cliché. Marjane era uma artista séria e nenhuma artista séria consegue sê-lo sem abominar histórias perfeitas e redondinhas com príncipes suecos e encantados capazes de amparar sonhos, de aplaudir em todas as estreias, de chorar em todos os seus sucessos.."Marjane era uma artista séria e nenhuma artista séria consegue sê-lo sem abominar histórias perfeitas e redondinhas com príncipes suecos e encantados capazes de amparar sonhos, de aplaudir em todas as estreias, de chorar em todos os seus sucessos.". Trinta anos em que riram, fizeram planos, leram um para o outro, davam a mão no cinema e viajavam sem mais ninguém. Mattias partiu com um apressado cancro, tinha 53 anos. E esta semana, 12 meses depois, Marjane foi ao seu encontro.Morreu de tristeza profunda, escreveu a família. De um amor irremediável e absoluto. Nela mais nada foi capaz de nascer. Nenhuma ideia, nenhuma palavra, nenhum desenho. Secou e partiu.