Caro São João Bosco, consegue ler-me? Tenho a certeza absoluta de que sim e que já calcula o conteúdo do meu desabafo. Se o faço é por sentir que o devo.Bolas! A sua vida obriga-me a isso, o respeito pela escola que fez nascer quando os tempos eram ainda mais difíceis do que os de hoje.Fundou os Salesianos, um espaço aberto aos mais pobres, aos órfãos, aos que mendigavam sem futuro nas ruas de Turim e depois em toda a Itália.Os relatos falam-nos dos seus olhos brilhantes, quando mais uma criança entrava, via-a como Jesus ou como um espelho de si próprio, afinal também perdera o seu pai antes de o poder conhecer.Uma família camponesa a sua, quem diria que fosse tocado por Deus para a missão de transformar “jovens lobos em adoráveis cordeiros”? De oferecer um futuro a miúdos de rua pela força do amor e não, como era habitual, pela agressividade?. São João Bosco, sabe decerto o que está a suceder numa escola que defende o seu nome e exemplo, os Salesianos de Manique. Nem sei bem como explicar, tentarei fazê-lo em poucas linhas.As crianças pobres não podem comer no refeitório comum o mesmo que as crianças ricas. Têm uma ementa reduzida, pratos mais baratos. Está triste, calculo.Mas há uma tristeza mais funda, meu amigo. É que a sua administração assume que a culpa é do Estado, pois o subsídio que recebe para os alunos que não pagam a matrícula impede que seja de outra maneira. Fazem o que podem para que as contas batam certo e a escola possa continuar a dar lucro.Não consigo escrever mais nada, era isto.