As crianças foram abandonadas numa berma da Estrada Nacional. A mãe e o padrasto deixaram-nas de olhos vendados e um homem encontrou-as num fim de tarde. Dois rapazes assustados que ainda não aprenderam a ler e a contar, com 3 e 5 anos numa viagem que poderia ter sido bonita, talvez a primeira vez que saíram de França, que ouviram uma outra língua, que dormiram num hotel.Ou então não, ou então viviam num inferno e o melhor que lhes aconteceu foi terem sido encontrados por um padeiro de Alcácer do Sal e agora poderem recomeçar, apesar das feridas impossíveis e injustas..As crianças estão protegidas numa família de acolhimento. Há muitas em Portugal, mas não as suficientes para acolher os meninos que precisam.Inscrevi-me há uns tempos, mas chegámos à conclusão de que não estávamos ainda à altura, precisávamos de mais despojamento, de mais coragem, de mais capacidade de dar sem esperar nada em troca.."As crianças foram abandonadas numa berma da Estrada Nacional. A mãe e o padrasto deixaram-nas de olhos vendados e um homem encontrou-as num fim de tarde.".Uma família de acolhimento não adota, permite a transição para os pais adotivos, quando os processos correm bem. Uma família de acolhimento recebe crianças sabendo que nunca ou dificilmente serão suas… como cultivar o desapego sendo afetivos, sendo os pais que a maioria nunca teve, tapando-os de noite, amparando-os nos fantasmas, tratando-lhes as doenças, levando-os à escola?Falo dos anónimos, dos que cuidam das crianças abandonadas com mochilas às costas nas bermas de uma vida que os condenou a não ter infância. Gente anónima, gente que passa por nós na rua sem que os conheçamos, gente que faz o Bem sem precisar de mais nada.