A Figura do Dia. A explosão na Marcha pela Vida

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

Publicado a

Não me sentiria bem se passasse pelo que aconteceu na Marcha pela Vida como se o tema tivesse pouca importância. Não é possível condenar os movimentos neofascistas, o silenciamento do Chega em relação a Mário Machado e ao seu grupo racista ou os ares de um tempo feroz, mas depois não me indignar com o que aconteceu à frente do Parlamento no passado fim de semana.

O que passa pela cabeça de alguém quando faz explodir um engenho no meio de uma multidão onde estavam crianças e bebés? Quer assustar? Ou deseja matar pessoas por serem contra a interrupção da gravidez ou conservadoras?

O sujeito que foi detido, e depois libertado, tem 39 anos. Imaginei que poderia ser um adolescente ou um muito jovem adulto, mas é homem feito, talvez com filhos, sem dúvida com uma família.

"O que passa pela cabeça de alguém quando faz explodir um engenho no meio de uma multidão onde estavam crianças e bebés? Quer assustar? Ou deseja matar (...)?"
"O que passa pela cabeça de alguém quando faz explodir um engenho no meio de uma multidão onde estavam crianças e bebés? Quer assustar? Ou deseja matar (...)?"António Pedro Santos / LUSA

Entre ele e os fascistas não há uma única diferença. Alimentam-se do ódio e do ressentimento, alimentam-se do radicalismo e da fação, alimentam-se da violência e de uma moralidade amoral.

O combate pelas ideias trava-se na troca de argumentos, no respeito pelas ideias dos outros.

Por vezes, não é possível fazê-lo: como respeitar os argumentos de quem todos os dias vive de efabulações, preconceitos e mentiras? Mas quando tal acontece temos mecanismos que nos protegem da infâmia.

A democracia é isso, os seus poderes reguladores deveriam proteger-nos da nossa irreprimível tendência para a ignomínia.

Repito, aquele homem tinha 39 anos. Conscientemente atirou um engenho explosivo para o meio de uma multidão com crianças e bebés. Não pode existir contemplação.

Diário de Notícias
www.dn.pt