Não me sentiria bem se passasse pelo que aconteceu na Marcha pela Vida como se o tema tivesse pouca importância. Não é possível condenar os movimentos neofascistas, o silenciamento do Chega em relação a Mário Machado e ao seu grupo racista ou os ares de um tempo feroz, mas depois não me indignar com o que aconteceu à frente do Parlamento no passado fim de semana. O que passa pela cabeça de alguém quando faz explodir um engenho no meio de uma multidão onde estavam crianças e bebés? Quer assustar? Ou deseja matar pessoas por serem contra a interrupção da gravidez ou conservadoras?O sujeito que foi detido, e depois libertado, tem 39 anos. Imaginei que poderia ser um adolescente ou um muito jovem adulto, mas é homem feito, talvez com filhos, sem dúvida com uma família.. Entre ele e os fascistas não há uma única diferença. Alimentam-se do ódio e do ressentimento, alimentam-se do radicalismo e da fação, alimentam-se da violência e de uma moralidade amoral.O combate pelas ideias trava-se na troca de argumentos, no respeito pelas ideias dos outros.Por vezes, não é possível fazê-lo: como respeitar os argumentos de quem todos os dias vive de efabulações, preconceitos e mentiras? Mas quando tal acontece temos mecanismos que nos protegem da infâmia.A democracia é isso, os seus poderes reguladores deveriam proteger-nos da nossa irreprimível tendência para a ignomínia.Repito, aquele homem tinha 39 anos. Conscientemente atirou um engenho explosivo para o meio de uma multidão com crianças e bebés. Não pode existir contemplação.