Não sei como dizer isto de outra maneira, talvez seja melhor da mais simples: no sábado à noite vi um dos espetáculos da minha vida. Cantei, chorei, aplaudi, pensei no que ando aqui a fazer, rezei pelos meus mortos, ambicionei o que ainda não fiz, as canções que não ouvi, os livros que não li. Na noite do Tivoli fui tocado por Sílvia Perez Cruz, catalã do mundo, artista total, a voz que mais me emocionou entre todas as que o fizeram..Sílvia não é apenas uma cantora extraordinária. É atriz, poeta, confidente, maestrina, compositora, coreógrafa e bailarina. É anjo e pecado, proximidade e utopia, revolução e afeto, raiva e amor.Vê-la assim tão perto, escutar as suas canções, a empatia com quem a vê e com os seus músicos, é uma viagem terna, louca, arriscada por nos podermos perder, por sufocarmos de tanta beleza, mesmo quando nos entristecemos como se a sua voz fosse primavera e outono, esperança selvagem e profunda melancolia.."Sílvia não é apenas uma cantora extraordinária. É atriz, poeta, confidente, maestrina, compositora, coreógrafa e bailarina. É anjo e pecado, proximidade e utopia, revolução e afeto, raiva e amor.".Sílvia Perez Cruz é uma diva. Vi-a no sábado à noite em Lisboa, mas viajei por Montmartre e pelos bordéis de Pigalle, senti a rumba catalã e o fado, o samba e a MPB, a habanera cubana e o flamenco, o gospel e a Sagrada Família, o desespero de Fassbinder e a esperança de Tati.Sílvia é o fatalismo de Piaf, Amália ou Cesária com a alegria mística de Bethânia e o virtuosismo de Fitzgerald. Se eu pudesse dizer isto de forma diferente, dizia. Fica assim, só entre nós. Um segredo que partilho. Um assombro, um feitiço, um terramoto que nos abala o que tínhamos como certo.