A farsa dos loucos e Portugal

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Querem um exemplo concreto da relevância do multilateralismo entre estados que também protege as populações portuguesas e Ocidentais? Olhem para o caos no Médio Oriente com a resposta do Irão à Operação Fúria Épica e onde tudo isso esteve ausente desde o primeiro momento.

Num contexto em que a União Europeia tanto invoca a “autonomia estratégica” pretendida, seria expectável que, pelo menos os estados afirmassem, o primado do Direito Internacional e da diplomacia. Alguns fizeram-no. Portugal optou pelo silêncio administrativo. Algo que nos tornou perigosamente coniventes. Mesmo que de forma prudente, a União tenha apelado à contenção e à legalidade institucional. Fora desse espectro, até o Reino Unido que é o grande aliado dos americanos, foi contundente e não renunciou ao reflexo na utilização das suas bases.

Lê-se grande parte da opinião pública americana e europeia, e existe uma crítica com pouco ou nada de ideológico a esta investida e que sublinha aquilo que já se deveria ter aprendido com a História recente. As mudanças de regime não acontecem assim num país da dimensão do Irão e com as células terroristas que dali espoletam. Antes, têm tendência a reforçá-las e até a reacender o que estava adormecido.

Netanyahu é um carniceiro que pretende dizimar a região para distrair aquilo que recai sobre si e Trump, de forma quase idêntica, é alguém que despreza os serviços de inteligência, a diplomacia e tudo o que é aconselhável na cautela que se deve ter sobre aquela região. Não será um pormenor esta guerra ter sido iniciada por quem foi do lado Ocidental.

Com o tema da utilização da Base das Lajes e os EUA como Estado agressor, Portugal colocou-se à margem de um dos maiores desafios na relevância da UE: a reabilitação do multilateralismo e do Direito Internacional. Perdemos espaço para a crítica recorrente da falta de força política e de autonomia da União. Como se poderá exigir isso a partir daqui? É verdade que o Governo Português não participa no ataque, mas politicamente a resposta é insuficiente em relação às Lajes. Nem nos enquadrámos de forma pragmática. Se é certo que provavelmente não corremos o risco de ser atingidos por um míssil, também o é que a guerra assimétrica pode vir a revelar-se por outros meios e aí a comprometer-nos.

Nada aprendemos com a História. O resultado da invasão do Iraque à margem culminou num país devastado, de uma instabilidade regional duradoura e do fortalecimento de dinâmicas extremistas que ainda hoje moldam o Médio Oriente.

No Afeganistão, duas décadas de intervenção resultaram num regresso ao ponto de partida, com mais de dois milhões de mortos e custos financeiros incalculáveis.

Mudanças de regime promovidas externamente, por mais tenebroso e sanguinário que seja o mesmo - e o do Irão é tudo do pior - produzem efeitos desastrosos. Ignorar essa memória coletiva é um luxo ao qual a Europa não se pode dar. Muito menos um Estado como Portugal. Ao evitar qualquer afirmação política, o Governo enfraquece a relevância portuguesa e contribui para aquilo que tem sobrado: uma UE sem peso estratégico.

Pequenos Estados não ganham influência pelo alinhamento subserviente, mas pela consistência dos princípios que defendem. Se queremos uma Europa com voz própria, temos de começar por exercê-la. Caso contrário, continuaremos a queixar-nos da fragilidade europeia enquanto voluntariamente, somos hoje o principal promotor.

Olhemos para o nosso vizinho e entendamos como se mantém a lucidez, os princípios, a realpolitik e a coluna num tempo de ignorância trumpista e em que a farsa dos loucos comanda.

Podemos ser mais do que isto.

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