Em 2014 a Rússia anexou a Crimeia e intensificou a subversão que já levava a cabo no Leste da Ucrânia, através do fomento de milícias de russos étnicos e da infiltração de tropas especiais russas. As debilidades que se reconheciam à Ucrânia nos planos político, militar e social (nomeadamente corrupção) explicam, pelo menos parcialmente, a tímida reação Ocidental perante esses preocupantes acontecimentos.Avaliando mal a situação, a Rússia decidiu invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022 com o propósito de a subjugar e anexar, ou, pelo menos, neutralizar e controlar. Nessa iniciativa a Rússia enganou-se em muitos parâmetros. Desde logo quanto ao arreigado nacionalismo ucraniano. Depois com a excecional qualidade humana e política do presidente Zelensky, que tomaram como um simples e impreparado comediante, o que efetivamente ele foi, sem se aperceberem da sua invulgar estatura de líder. Iludiram-se com a reação Ocidental e europeia. Fizeram também um cálculo muito errado das suas próprias aptidões e capacidades militares, cujas fraquezas expuseram ao Mundo, o que muito agora os deve incomodar. A visão de que Kiev e a Ucrânia seriam facilmente tomados em breves dias testemunha hoje, de modo muito eloquente, o falhanço político e estratégico da Rússia.Em todo o caso, a maior parte dos pensadores e analistas ocidentais também se enganaram quanto à capacidade de resistência dos ucranianos e quanto às possibilidades que teriam para superar as suas reconhecidas fraquezas e insuficiências militares.Passados cerca de quatro anos e meio de conflito, constata-se uma persistente e empenhada resistência ucraniana. A ofensiva russa está parada e vai mesmo perdendo território. A Crimeia está quase separada da Federação russa e intensificam-se ataques profundos ao território russo, visando com êxito instalações militares, refinarias, infraestruturas críticas, a esquadra russa do Mar Negro e mesmo as cidades de Moscovo e São Petersburgo. Algo que a Rússia não imaginou que pudesse acontecer.As baixas russas são enormes e, numa sociedade mais aberta, seriam inaceitáveis. As dificuldades de recrutamento são evidentes. Esgotado, por via da mortandade generalizada, o filão norte coreano, parece que a Rússia procura agora o recurso a afegãos. Se não fosse trágico, seria irónico…Como é que isto foi possível? Em primeiro lugar pelo patriotismo e resiliência dos ucranianos.Depois pela determinação política da Ucrânia, protagonizada por Zelensky que, com uma convicção inabalável, continua a levar a causa da Ucrânia às principais sedes de poder do Mundo, granjeando apoios financeiros, armamento e equipamento militar e a reiterada condenação da Rússia pela sua atitude de expansionismo agressivo, desrespeitadora do Direito Internacional.Mas também pela excecional inteligência estratégica que a Ucrânia tem evidenciado. E pelas revoluções operacionais que, com engenho e abertura de espírito, assumiu e vem praticando, designadamente através de um uso inédito e muito arguto de drones, mas também em muitos outros aspetos. Inovando absolutamente. E, igualmente, pela corajosa e determinada transformação que operou no seu sistema tecnológico e industrial orientando-o, sem hesitação e com muita eficácia e sucesso, para a satisfação objetiva das suas necessidades operacionais.Nesta parte da Europa, multiplicamos conferências a chamar a atenção para o potencial transformador das tecnologias emergentes e disruptivas, apelando à sua introdução efetiva na nossa Base Tecnológica e Industrial de Defesa. Talvez por não poder perder tempo, a Ucrânia já o fez. E com reconhecido êxito e vantagem.A Ucrânia tem hoje laços inquebráveis com a UE e com a NATO. Numa hora em que se especula e se procura desenvolver uma organização europeia de Defesa, a Ucrânia, mesmo sem ser, por agora, membro da UE ou da NATO, é garantidamente um parceiro indispensável para esse esforço. Em várias dimensões tem muito para ensinar aos demais Estados europeus e poderá mesmo ser líder incontestado em várias dimensões.Num universo de racionalidade, que infelizmente não existe em todo o lado, Zelensky não voltaria hoje a ser enxovalhado na Sala Oval.Eis como Putin assegurou o encastramento da Ucrânia no Mundo Ocidental. E, porventura, cavou o início o fim do seu detestável regime.Para disparate político e estratégico não está mal…