A Europa não se salva apenas com armas

Bruno Valverde Cota

Doutorado em Gestão e executivo internacional

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Há poucos dias, numa fábrica portuguesa, fiquei parado diante de uma peça metálica que quase ninguém notaria.

Não tinha brilho. Não tinha marca. Não tinha discurso. Era apenas uma peça técnica, de precisão, feita para integrar um equipamento maior. No entanto, se falhasse, uma máquina parava, uma entrega atrasava, um contrato podia perder-se.

Foi ali que percebi que a discussão europeia sobre segurança talvez esteja a começar no sítio errado.

A Europa fala hoje de defesa, ameaças e novas metas de investimento. Portugal já acelerou o seu esforço: em 2024, a despesa estava perto de 1,58% do PIB; em 2025, chegou aos 2%, cerca de 6,12 mil milhões de euros. A NATO aponta agora para 5% até 2035, somando defesa direta e segurança alargada. A União Europeia prepara mecanismos para mobilizar centenas de milhares de milhões.

Os números são enormes. Mas a pergunta essencial é económica: que parte desse dinheiro fica a criar capacidade nos países?

Portugal não pode olhar para este ciclo como quem apenas abre um novo capítulo de despesa pública. Para uma economia com problemas de produtividade, escassez de técnicos, baixa escala industrial e dificuldade em reter talento, cada euro mal desenhado será uma oportunidade perdida.

Comprar equipamento pode ser necessário. Mas comprar sem aprender é caro. Comprar sem produzir é dependência. Comprar sem manter, certificar, programar ou exportar é apenas importar segurança com dinheiro que poderia também construir futuro.

A minha proposta é simples: Portugal deve medir o investimento em segurança não apenas pelo que compra, mas pelo que fica. Cada euro adicional em defesa e segurança deve deixar uma marca na economia portuguesa.

Fica uma fábrica mais equipada? Fica uma empresa certificada para fornecer plataformas internacionais de produção e fornecimento? Fica engenharia nacional? Fica manutenção em território português? Ficam técnicos formados? Fica software, propriedade intelectual, cibersegurança, robótica, sensores, metalomecânica avançada ou tecnologia marítima?

Se a resposta for não, gastámos. Se a resposta for sim, investimos.

Este é o ponto económico decisivo. A próxima década pode ser uma ameaça orçamental ou uma oportunidade industrial. Depende da forma como desenharmos os contratos, os incentivos e as prioridades.

Portugal deveria assumir uma regra de bom senso: uma parte relevante do novo investimento em segurança deve gerar retorno industrial nacional. Não por protecionismo, mas por inteligência económica. Pequenos países não vencem pela escala. Vencem pela especialização, pela velocidade, pela qualidade e pela capacidade de entrar em nichos globais de elevado valor.

Há setores onde Portugal pode competir: engenharia de precisão, manutenção industrial, automação, energia, cibersegurança, comunicações seguras, tecnologias oceânicas, proteção de infraestruturas críticas, dados e sistemas autónomos. Muitas destas áreas servem simultaneamente a economia civil, os portos, a energia, os transportes, a indústria e a segurança.

Isto não é militarizar a economia. É industrializar melhor o investimento.

Como empresário, sei que a competitividade não nasce de slogans. Nasce de encomendas, escala, financiamento, talento, certificação, risco e confiança. Nasce quando o Estado deixa de comprar apenas produtos e passa a comprar também capacidade nacional.

A Europa não se salva apenas com armas porque a segurança económica começa muito antes do campo de batalha. Começa nas fábricas, nos dados, na energia, nos portos, nos cabos submarinos, nos engenheiros e nas empresas capazes de vender ao mundo.

Naquela peça metálica, aparentemente banal, estava uma lição: o futuro não é apenas de quem tem mais orçamento. É de quem transforma capital em capacidade.

Portugal não precisa apenas de gastar mais.

Precisa de garantir que cada euro constrói uma economia mais produtiva, mais tecnológica e mais livre.

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