Nos dias 18 e 19 de novembro, Shenzhen, a metrópole chinesa na fronteira com Hong Kong, acolhe a Cimeira da APEC, o fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico. Putin anunciou que irá, e Trump confirmou igualmente a sua presença. Nos bastidores, admite-se uma reunião entre Xi Jinping, Vladimir Putin e Donald Trump à margem da cimeira. O encontro permanece incerto, por falta de acordo sobre a agenda. Mais do que antecipar se ocorrerá, importa compreender por que razão esta hipótese merece a atenção dos analistas de geopolítica.
A iniciativa parece ter partido de Moscovo. Uma fotografia de Putin com os presidentes americano e chinês reforçaria a imagem da Rússia como potência influente nas decisões internacionais, apesar das sanções, do isolamento diplomático e da guerra de agressão contra a Ucrânia. Segundo o Kremlin, um dos temas seria o futuro da Ucrânia, discutido sem Kiev ou a Europa.
Trump poderá privilegiar outros assuntos, eventualmente numa redefinição de esferas de influência comparável à de Ialta. Tem sido evidente a sua preferência pelo entendimento direto com líderes autoritários em detrimento das alianças democráticas multilaterais. A sua abordagem desvaloriza as instituições internacionais criadas após a Segunda Guerra Mundial e relega a União Europeia para um papel secundário. Contudo, a sua leitura das eleições intercalares de 3 de novembro e o contexto político interno pós-eleitoral poderão condicionar a sua margem de manobra e os seus planos de viagem.
Pequim adota uma posição mais prudente. Em público, não se refere a qualquer reunião trilateral, embora Moscovo afirme que Xi aceitou a iniciativa. Mesmo que tenha aceitado, Xi não parece disposto a reconhecer à Rússia um estatuto equivalente ao da China e dos Estados Unidos. Para Pequim, a prioridade é a competição com Washington, o seu principal concorrente, procurando afirmar a China como o centro da diplomacia internacional. Nesta perspetiva, Moscovo ocuparia uma posição subalterna.
Qual é, neste contexto, o lugar da Europa, com 450 milhões de habitantes e uma das maiores economias do mundo? A APEC reúne 21 economias, que representam cerca de 61% do PIB mundial, quase metade do comércio global e perto de 40% da população do planeta. É, por isso, um dos principais centros de gravidade da economia mundial. A União Europeia não é membro, nem tem estatuto de observador.
A 14 e 15 de dezembro, o G20 reúne-se nos arredores de Miami. Sob a presidência de Trump, participarão alguns países europeus e a liderança da UE, num contraste significativo com a cimeira da APEC. A agenda reflete o liberalismo económico e a visão de capitalismo da Administração Trump: “Crescimento através da desregulação, abundância energética e inovação.” A Europa continua a ser um grande mercado e uma região fundamental para a expansão económica, mas a presença à mesa do G20 não garante influência efetiva, nem elimina o risco de marginalização nas decisões que moldam a nova ordem política internacional. Durante séculos, os europeus influenciaram decisivamente o destino de outras regiões; hoje, questões centrais para o futuro da Europa são debatidas sem a sua participação.
Esta situação decorre, em parte, de escolhas anteriores. A Europa assumiu que a prosperidade se traduziria em influência e o desenvolvimento económico seria determinante na geopolítica. Privilegiou a produção de normas, enquanto outros reforçavam o investimento em tecnologia, indústrias de ponta e capacidade estratégica. Entretanto, a guerra regressou ao continente, a rivalidade sino-americana passou a estruturar a política mundial e a Inteligência Artificial concentra riqueza e inovação em poucos polos, quase todos fora da Europa.
Os dados apontam para uma perda de dinamismo da economia europeia. Segundo a OCDE, a produtividade por hora trabalhada na UE estava cerca de 16% abaixo da americana em 1995; em 2022, a diferença atingia cerca de 23%. Este fosso crescente tem consequências políticas: o crescimento económico sustenta a defesa, a investigação e o Estado social. As manifestações em vários países da UE tornam particularmente relevante a sustentabilidade do modelo social europeu, construído num contexto de crescimento robusto e de posição dominante na economia mundial. Nenhuma dessas condições está hoje garantida.
A comparação relevante estende-se dos Estados Unidos às economias desenvolvidas da Ásia. Vários países asiáticos têm enfrentado desafios semelhantes aos europeus - envelhecimento demográfico, habitação cara e escassa, emprego precário e custo de vida elevado - e responderam com investimentos de grande escala em automação, robótica, semicondutores, ciência aplicada, digitalização e modernização da educação.
Seria, contudo, precipitado considerar irreversível o declínio europeu. A Europa mantém-se entre as maiores economias do mundo e preserva uma combinação distintiva de democracia, humanismo e conhecimento. O desafio é traduzir esses recursos e valores em capacidade estratégica, superando obstáculos conhecidos: um mercado único incompleto, mercados de capitais fragmentados, investimento insuficiente em tecnologia, segurança e defesa, decisões lentas e excesso de burocracia. Acresce o peso das heranças históricas na construção de uma Europa unida.
É neste contexto que Shenzhen assume relevância. A possibilidade de três grandes potências, com visões do mundo distintas da europeia, planearem um encontro sem a Europa é um sinal de alerta: sugere que, nesse círculo, a presença europeia é dispensável no debate sobre a guerra e a paz, o desenvolvimento e outros desafios internacionais. A Europa não pode aceitar essa marginalização. Para contrariar essa perceção, tem de reforçar a sua unidade política e atuar com maior determinação na arena internacional.