A escalada da guerra e o futuro do petrodólar

Publicado a

O conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão entrou numa fase qualitativamente diferente. Já não se trata apenas de ataques cirúrgicos ou retórica inflamada. A resposta de Teerão ao ultimato norte-americano elevou o risco para um patamar que toca no coração da sobrevivência do Golfo Pérsico: a ameaça de destruir infraestruturas críticas, como centrais elétricas e unidades de dessalinização, que mantêm vivas algumas das regiões mais inóspitas do planeta. Numa região do globo onde as temperaturas ultrapassam os 50 graus e há poucos rios, a água potável depende quase inteiramente da dessalinização. A eletricidade é o sistema circulatório que sustenta cidades, hospitais e economias inteiras. A destruição de várias destas unidades seria uma catástrofe humanitária e, para alguns estados, uma ameaça existencial.

A escalada atinge também o sistema dos petrodólares, que há meio século sustenta o papel dominante do dólar dos Estados Unidos. Os países do Golfo não são apenas exportadores de petróleo e gás natural; são pilares de um mecanismo que consolidou o dólar como moeda de referência no comércio energético e, por extensão, no sistema financeiro internacional. A estabilidade destas monarquias sempre foi um dos alicerces desse arranjo. Mas a aproximação crescente à China, a diversificação das moedas usadas em contratos energéticos e a incerteza estratégica já corroem a exclusividade do dólar. O sistema não está a ruir, mas deixou de ser incontestável.

"A escalada atinge também o sistema dos petrodólares, que há meio século sustenta o papel dominante do dólar dos Estados Unidos."
"A escalada atinge também o sistema dos petrodólares, que há meio século sustenta o papel dominante do dólar dos Estados Unidos."Shawn Thew / POOL

É neste contexto que a atual escalada se torna particularmente perigosa. Um conflito prolongado, que coloque em risco a segurança física e económica dos estados do Golfo, pode acelerar a procura de alternativas ao dólar. Países dependentes do petróleo do Médio Oriente podem preferir contratos em moedas menos expostas a tensões geopolíticas. E os próprios produtores, pressionados por ameaças existenciais, podem reforçar alianças fora da esfera tradicional. As monarquias do Golfo detêm algumas das maiores reservas soberanas do mundo, grande parte delas investida em ativos financeiros, imobiliário e empresas nos EUA e na Europa. Em momentos de crise, estes fundos funcionam como almofadas de estabilidade interna, mas também como instrumentos de pressão silenciosa. Se a escalada se agravar, é plausível que repatriem capital, vendam ativos ocidentais ou reequilibrem carteiras em direção a mercados considerados mais neutros. As consequências seriam imediatas: volatilidade nos mercados, pressão sobre as bolsas e, até, o eventual rebentar de algumas “bolhas” especulativas.

O futuro do conflito depende também da estratégia iraniana. O Irão sabe que não pode vencer uma guerra convencional contra os Estados Unidos e a coligação regional que o cerca. Por isso, segue uma estratégia assimétrica: aumentar o custo político, económico e social de qualquer confronto. A ameaça às infraestruturas críticas do Golfo é um exemplo clássico dessa lógica de dissuasão do fraco ao forte. Teerão não precisa de destruir todas as centrais elétricas ou de dessalinização; basta convencer os adversários de que pode fazê-lo. A incerteza é a melhor arma e pode ser suficiente.

"A ameaça do Irão às infraestruturas críticas dos países do Golfo é um exemplo clássico da dissuasão do fraco ao forte. Teerão não precisa de destruir todas as centrais. Basta convencer os adversários de que pode fazê-lo.”

Por esta altura, tudo pode acontecer, incluindo um cessar-fogo que congele a situação antes de uma escalada irreversível. Mas o cenário que se tem vindo a desenhar nos últimos dias é o de um conflito prolongado, com a possibilidade - ainda distante, mas não impensável - de uma intervenção terrestre norte-americana nas costas do Irão, destinada a garantir a passagem segura pelo Estreito de Ormuz.

Um conflito dessa natureza teria consequências imprevisíveis, sobretudo se se transformasse numa guerra de atrito, que se arrastasse durante anos, a fazer lembrar o Vietname e o Afeganistão. Se, após esse desgaste, a guerra terminasse nos termos exigidos por Teerão - a retirada dos Estados Unidos do Médio Oriente -, os países do Golfo ver-se-iam obrigados a reconfigurar o seu quadro de segurança. Não é certo que passassem automaticamente para a esfera de influência iraniana, porque as rivalidades históricas são profundas, mas a ausência americana abriria espaço para uma ordem regional mais multipolar, onde o Irão teria maior peso.

Uma mudança desta magnitude poderia pôr em causa o sistema dos petrodólares e, no limite, o próprio “privilégio exorbitante” do dólar, com efeitos globais difíceis de antecipar. Dentro de poucos anos os Estados Unidos poderiam ter de lutar não apenas pela estabilidade do Golfo, mas pela sobrevivência da “nota verde” como principal moeda mundial e, por arrasto, pela sua posição como superpotência.

Diário de Notícias
www.dn.pt