No mundo dos adultos, junho é um mês de crianças, tempo familiar e com o período estival à porta, não fica mal recomendarem-se leituras e viagens. Então sugiro o sempre atual livro do pedagogo italiano Francesco Tonucci, autor de A Cidade das Crianças, que, com um silogismo básico, propõe a resolução de um problema histórico.Diz Tonnucci que se uma cidade é boa para as crianças, logo será boa para todos. No fundo, alega que as cidades modernas recentes foram desenhadas a pensar num único protótipo de cidadão, o homem adulto, trabalhador e condutor de automóvel. Todos os outros, em especial as crianças, foram empurrados para um segundo plano ou trancados em espaços vigiados, como "parques infantis" isolados por grades.A proposta é progressista na sua simplicidade: devolver a autonomia permitindo às crianças sair à rua, brincar sem a vigilância asfixiante dos adultos e caminhar sozinhas.Já que a questão da escala é um problema de arquitetura e urbanismo, acrescento ainda outra sugestão, a do dinamarquês Jan Gehl, que através de, pelo menos, dois livros – Life Between Buildings (A Vida Entre Edifícios) e, Cities for People (Cidades para Pessoas) –, escreve extensamente sobre a "Escala Humana" e reclama que os problemas do urbanismo moderno surgiram quando o planeamento deixou de desenhar as cidades à escala do peão (que anda a 5 km/h e vê os detalhes ao nível dos olhos) e passou a desenhar à escala do automóvel (que anda a 50 km/h e só vê grandes massas construídas). E afirma que a forma de curar as cidades e devolver a rua à cidadania é voltar à "escala dos 5 km/h", o que representa a tal escala dos pequenitos.E isso leva-nos a uma sugestão e visita. Em 1940, no auge do Estado Novo, inaugurou-se o Portugal dos Pequenitos idealizado pelo professor Bissaya Barreto, um ilustre médico e professor de medicina da Universidade de Coimbra, e desenhado por Cassiano Branco, um arquiteto modernista que projetou um parque que viria a ser referência para sucessivas gerações de crianças em Portugal. Um livro de história? Uma mensagem protofascista? Um modo errado de ver a portugalidade? Um exercício de linguagem ultrapassado? Um espaço de visita para as crianças se divertirem?Provavelmente isso tudo, mas, ainda assim, é um espaço que sobreviveu a quase 80 anos de mudanças. O conceito tinha dois grandes propósitos, explicar às crianças, de forma visual, a História, a arquitetura e a cultura de Portugal e dos países de língua oficial portuguesa da época. E criar um espaço onde o mundo dos adultos estivesse perfeitamente moldado ao tamanho das crianças, permitindo-lhes interagir com os edifícios.Neste mês de junho de 2026, vivemos num tempo de destruição, ou na sublimação da mania das grandezas, quando afinal o que deveríamos procurar é a escala dos pequenitos. Uma escala que hoje parece faltar à política urbana. Continuamos a discutir cidades a partir da grande obra, da grande infraestrutura, do grande evento, do grande investimento e da grande velocidade. Mas raramente perguntamos se uma criança consegue ir sozinha à escola, atravessar uma rua em segurança, brincar perto de casa, reconhecer o seu bairro ou participar na vida comum sem depender permanentemente de um adulto e de um automóvel.A escala dos pequenitos não é uma nostalgia, nem uma fantasia pedagógica. É um critério político. Obriga-nos a perguntar para quem se desenham as ruas, a quem serve o espaço público, quem tem direito à autonomia e quem fica excluído quando a cidade é organizada apenas para carros, consumo, pressa e rendimento imobiliário.Nesse sentido, Tonucci, Gehl e até o Portugal dos Pequenitos apontam para a mesma evidência: uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que têm menos poder sobre o espaço. As crianças não votam, não conduzem, não compram casa, não adjudicam obras e não definem planos diretores. Talvez por isso sejam tão bons indicadores da qualidade democrática de uma cidade.