A Economia precisa de mais mulheres

Sofia Santos

PhD, CEO da Systemic

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Durante décadas, o debate sobre o género foi frequentemente reduzido à questão da igualdade entre homens e mulheres. Mas a evolução das políticas europeias de gender mainstreaming trouxe uma perspetiva mais ampla e mais transformadora: não basta tratar todos de forma igual; é necessário reconhecer as diferenças, compreender as necessidades específicas de mulheres e homens e integrar esse conhecimento em todas as decisões públicas e privadas. A União Europeia tem vindo precisamente a promover a incorporação sistemática da perspetiva de género nas políticas públicas, na investigação, no orçamento e nos processos de decisão.

Esta abordagem parte de uma constatação simples: durante séculos, grande parte do conhecimento científico, dos produtos, dos serviços e dos modelos organizacionais foi construída a partir de uma visão predominantemente masculina da realidade. Em consequência, surgiram enviesamentos que hoje conhecemos bem. Estudos clínicos realizados maioritariamente com homens conduziram a medicamentos cujos efeitos nas mulheres nem sempre foram devidamente compreendidos. Equipamentos de proteção individual, sistemas de segurança automóvel, dispositivos tecnológicos e inúmeros objetos do quotidiano foram concebidos sem considerar plenamente as características fisiológicas femininas.

Reconhecer estes enviesamentos não significa criar divisões. Significa corrigir lacunas históricas e melhorar a qualidade das decisões. Significa evoluir e cooperar. Quando a perspetiva das mulheres é integrada desde o início, os produtos tornam-se mais eficazes, os serviços mais inclusivos e as políticas públicas mais ajustadas à realidade.

É precisamente por isso que o tema vai muito além da igualdade de género. Trata-se do reconhecimento e da valorização da diferença. Mulheres e homens não são iguais em todas as suas características biológicas, sociais ou vivenciais, e ignorar essas diferenças conduz ,frequentemente, a soluções menos eficazes. A verdadeira inclusão não procura apagar a diferença, mas sim ambiciona compreendê-la e valorizá-la.

O mundo empresarial oferece exemplos claros desta realidade. Organizações que incorporam diferentes perspetivas tendem a identificar riscos mais cedo, a compreender melhor os seus clientes e a desenvolver soluções mais inovadoras. Diversidade não é apenas uma questão de justiça; é um fator de competitividade, inovação e resiliência. O mesmo se aplica aos países. Sociedades capazes de integrar diferentes experiências, competências e sensibilidades estão geralmente mais preparadas para responder a crises económicas, sociais ou ambientais.

Também por isso os temas do género devem ser tratados de forma semelhante aos desafios climáticos. Tal como hoje reconhecemos a necessidade de integrar o clima em todas as políticas públicas, devemos assegurar que a dimensão do género seja considerada de forma transversal. O gender mainstreaming não pode ser uma reflexão acessória nem uma iniciativa isolada. Deve estar presente na elaboração das leis, na definição de programas públicos e, sobretudo, na construção dos orçamentos públicos, orientando o investimento para responder às necessidades reais da população.

No fundo, construir economias mais fortes e sociedades mais resilientes exige que deixemos de desenhar o mundo para apenas metade da população. Quando reconhecemos e valorizamos as diferenças, criamos melhores condições para que todos possam contribuir.

A paridade de género nos órgãos de decisão, nos conselhos de administração, nas instituições públicas, nas universidades e nos diversos centros de poder económico e político tem igualmente de permanecer no topo da agenda. Não se trata apenas de uma questão de representação estatística, mas de um tema central de direitos humanos e de qualidade da democracia.

Quando metade da população não está adequadamente representada nos espaços onde se tomam decisões, perde-se talento, diversidade de pensamento e capacidade de compreender a complexidade da sociedade. As sociedades mais evoluídas distinguem-se precisamente pela sua capacidade de garantir que todas as pessoas, independentemente do género, têm acesso efetivo às mesmas oportunidades de participação e liderança.

A paridade não é um fim em si mesmo; é um instrumento para construir instituições mais justas, decisões mais equilibradas e organizações mais inovadoras, resilientes e capazes de responder aos desafios de um mundo em constante transformação.

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