Quanto vale a paz?
A pergunta parece moral, mas é profundamente económica. O Institute for Economics & Peace estima que o impacto económico global da violência tenha atingido quase 20 biliões de dólares em 2024, equivalente a cerca de 11,6% do PIB mundial. Ou seja: a ausência de paz custa à economia global mais do que o PIB combinado da Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal.
Mas talvez a verdadeira questão seja outra: se conseguimos calcular o custo da guerra, por que continuamos sem medir o valor económico da paz?
A paz vale investimento que acontece, juros que não sobem, energia que não dispara, fábricas que não param, navios que não desviam rotas, redes globais de fornecimento que não colapsam e famílias que não perdem poder de compra.
Talvez o maior ativo económico do século XXI seja precisamente aquele que nunca aparece nos balanços: a estabilidade.
Hoje, uma guerra distante entra silenciosamente na vida das famílias através da inflação, dos combustíveis, da prestação da casa, do preço dos alimentos ou da subida dos seguros. A economia global transformou a instabilidade num fenómeno contagioso.
As guerras modernas começam muito antes dos mísseis. Começam quando a economia deixa de conseguir prever o futuro.
O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) estima que a despesa militar mundial tenha atingido cerca de 2,9 biliões de dólares em 2025, o valor mais elevado alguma vez registado. A Europa precisa de Defesa. Mas precisa também de compreender que a segurança já não é apenas capacidade militar. É capacidade industrial, energética, tecnológica, logística e social.
A inflação moderna já não resulta apenas de política monetária. Resulta cada vez mais daquilo a que poderíamos chamar “taxa oculta da guerra”: energia mais cara, rotas marítimas inseguras, matérias-primas críticas sob pressão, semicondutores vulneráveis e instabilidade permanente nas cadeias globais de abastecimento.
Talvez esteja precisamente aqui o maior erro estratégico europeu. Durante décadas, a Europa exportou regulação enquanto importava dependências estratégicas.
O mundo mudou.
E é aqui que deve nascer uma nova agenda: a Estratégia Económica da Paz.
Primeira medida: criar um Índice Europeu do Custo da Instabilidade, medindo em tempo real o impacto de conflitos na energia, inflação, logística, seguros, exportações, investimento e competitividade industrial. O que não se mede, não se governa.
Segunda: lançar um Fundo Europeu de Resiliência Industrial para energia, semicondutores, água, matérias-primas críticas, cabos submarinos, armazenamento estratégico e equipamento industrial essencial.
Terceira: transformar Portugal no primeiro laboratório europeu da economia da paz. Sines, Leixões e Lisboa podem posicionar-se como hubs atlânticos de energia, dados, logística e ligação estratégica entre Europa, África, Brasil e Médio Oriente.
Quarta: criar em Portugal um Centro Europeu de Diplomacia Económica e Resiliência Industrial, unindo Estado, empresas, universidades e diplomacia para antecipar riscos geopolíticos nas cadeias de valor globais.
Quinta: medir aquilo que ninguém mede hoje - o “Peace ROI”, o retorno económico da estabilidade. Quanto investimento adicional gera a paz? Quanto crescimento resulta da previsibilidade? Quanto valor económico é destruído pela instabilidade permanente?
O Banco Mundial estima que conflitos severos podem reduzir o PIB per capita de um país em cerca de 15% ao fim de cinco anos. Prevenir o conflito não é romantismo político. É racionalidade económica.
Portugal, pela sua posição atlântica, língua, diplomacia e capacidade de ligação entre continentes, pode afirmar-se como produtor de estabilidade num mundo fragmentado.
Porque talvez a maior descoberta económica das próximas décadas seja esta: a paz não é apenas um ideal moral. A paz é o investimento mais rentável que uma economia pode fazer e o século XXI deverá ser decidido não apenas pelas potências militares, mas pelos países capazes de produzir estabilidade.