O caso que envolve o ministro da Administração Interna, Luís Neves, acabou por se transformar num teste à magistratura de influência do Presidente da República. António José Seguro enfrenta o dilema clássico: se intervém, arrisca ser acusado de alimentar a instabilidade política; se se mantém em reserva, é criticado por inação.
O Presidente é o árbitro institucional a quem cabe garantir o regular funcionamento das instituições e assegurar o cumprimento da Constituição. Apesar do desgaste político provocado pela polémica, nada indica, até ao momento, que o caso tenha comprometido esse funcionamento – embora seja indispensável esclarecer rapidamente todos os seus contornos. Foi isso que Seguro exigiu desde o primeiro momento: celeridade, transparência e proteção da dignidade das instituições.
Mas há limites claros. Não compete ao Presidente decidir a composição do Governo. Isso é responsabilidade do primeiro-ministro. Seguro poderá, aliás, argumentar que está a cumprir o mandato que os portugueses lhe confiaram. Se os eleitores desejassem um chefe de Estado mais interventivo, disposto a ter voz no quotidiano da política partidária e em assuntos da competência do Governo, teriam escolhido outros candidatos que assumiram, de forma clara, essa intenção.
A eventual criação de um novo partido à direita do Chega, a partir do grupo nacionalista Reconquista – revelada pelo DN – merece atenção. O movimento liderado por Afonso Gonçalves, que tem milhares de seguidores nas redes sociais, rejeita o rótulo de “extrema-direita”, mas defende posições associadas ao nacionalismo branco e à expulsão ou deportação de milhões de imigrantes em Portugal e no resto da Europa.
Embora o Reconquista pretenda crescer à custa do Chega, para André Ventura o fenómeno pode ser politicamente útil. O Reconquista tentará conquistar os eleitores (e alguns militantes?) mais radicais do Chega, que, nesta fase da vida do partido, já não o ajudam a crescer. Ventura poderá, assim, reforçar a via da moderação em algumas questões, posicionando o Chega como o grande partido conservador e popular português, deixando para outros os rótulos de extremista e xenófobo. Por cada voto perdido à sua direita, Ventura poderá tentar conquistar dois ou três no campo do PSD e do CDS.
Durante anos, Paulo Portas afirmou que “à direita do CDS só há a parede”. Talvez Ventura venha a repetir a fórmula, agora com o Chega a disputar a hegemonia no campo da direita conservadora.
Donald Trump prometeu distribuir cinco mil dólares a cada cidadão norte-americano, caso os Republicanos vençam as eleições de novembro, que serão decisivas para o seu futuro político. Vários comentadores classificaram a proposta como uma medida de “pão e circo”, que será paga pelos contribuintes.
Trump não é, contudo, uma exceção. A diferença está no método: nos Estados Unidos, o governo envia cheques diretamente pelo correio. Na Europa, ao longo de décadas, muitos governos recorreram a medidas eleitoralistas que hipotecaram o futuro dos seus países, com subsídios pontuais, benefícios fiscais e aumentos salariais sem sustentabilidade orçamental. O mecanismo varia, mas a lógica é semelhante, ainda que sob um verniz de politicamente correto.