A diplomacia do engano: guerra e cinismo em tempos de Páscoa

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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Entramos neste período da Páscoa judaico-cristã com um mundo marcado pela instabilidade, pela violência prolongada e por uma inquietante normalização da guerra. Da Ucrânia ao Médio Oriente, passando pelo Irão, acumulam‑se conflitos que expõem não apenas a marginalização da diplomacia tradicional, mas também um cinismo crescente nas relações internacionais. Em vez da busca da paz, assiste‑se à instrumentalização da diplomacia como cavalo de Tróia para a força e a agressão, ao desprezo sistemático pelo Direito Internacional e à erosão acelerada da ordem multilateral construída após 1945.

De qualquer modo, este é um dos períodos do ano que exigem que se fale ainda mais alto, e com toda a coragem, sobre a importância da paz e da ética na política e na vida.

No caso do Líbano, a resposta é clara: a violência, e a gravíssima crise humanitária que o país enfrenta, não têm fim à vista. O governo de Benjamin Netanyahu aposta na guerra e na destruição das forças que classifica como inimigas. As ações do seu governo têm igualmente um impacto muito negativo sobre a imagem internacional e o futuro de Israel, algo que não me parece receber a atenção devida. O povo israelita está prisioneiro de uma coligação de fanáticos extremistas, que manipula a opinião pública do país e usa o racismo, a ilusão de uma crença étnico-religiosa e o medo como instrumentos de consolidação do poder.

Netanyahu despreza as normas internacionais e as resoluções das Nações Unidas. As suas decisões políticas e as campanhas militares que daí resultam serão um dia julgadas nos tribunais internacionais sediados na Haia. Entretanto, a União Europeia (UE) tem a obrigação moral de condenar a política do governo de Netanyahu e de manter um distanciamento diplomático em relação a esse regime.

Essa deve, aliás, ser a prática diplomática da UE, quando se tratar de regimes que não respeitam a Lei Internacional. Chama-se a isso soft power, uma posição coerente perante os desafios globais ou regionais, baseada em princípios que foram sendo estabelecidos como Direito Internacional ao longo de décadas. A força geopolítica da UE deve residir numa diplomacia sem ambiguidades, sem indecisões, nem oportunismos. Ser vista pelo resto mundo como uma União que segue uma política internacional baseada nas conveniências, na linha dos dois pesos e das duas medidas, pode ser considerado por muitos como sendo realismo político. Mas esse tipo de realismo leva ao desrespeito pelos Direitos Humanos e às crises que agora esmagam o Médio Oriente e outras partes do mundo. O realismo geopolítico é um retrocesso histórico.

Os senhores da guerra praticam a diplomacia do engano. É um erro classificar essa prática como a diplomacia do caos e do improviso. Os políticos por trás das agressões contra a Ucrânia, o Irão, no resto do Médio Oriente e noutras regiões, fingem estar prontos para negociar. Seguem, no entanto, uma estratégia deliberada de disrupção. Sabem o que estão a fazer. A diplomacia esconde a intenção bélica. Haverá uma boa dose de ignorância histórica, de erro de cálculo, mas a explicação capital das suas decisões reside no regresso à velha ideia da política da canhoneira como motor das relações internacionais.

A guerra de agressão contra o Irão, que tem consequências políticas e económicas que vão muito além da derrocada do Médio Oriente, mostrou que a diplomacia tradicional, baseada em tratados e protocolos, e na previsibilidade, deixou de contar para líderes como Donald Trump. Assim acontece desde 2014 e, em larga escala, desde 2022, com Vladimir Putin.

As iniciativas diplomáticas que fingem estar em curso escondem uma preferência pela teoria do choque e da confrontação, e uma filosofia de Diktat imperial inspirada no mundo do século XIX e na realidade vivida até ao fim da Segunda Guerra mundial. A artimanha passa por manter os adversários e os aliados num clima de pressão e incerteza constantes, e agir com base na surpresa. Não se trata de improvisar, mas sim de surpreender para tentar dominar.

A surpresa provoca a paralisia institucional, nomeadamente ao nível dos sistemas multilaterais e das alianças diplomáticas. Na realidade, no caso de Trump, põe em perigo a continuidade da dimensão política da ONU e a credibilidade da NATO. Nestes e noutros quadros institucionais multilaterais, desaparece a confiança, que é a base de uma diplomacia efetiva, e com a perda da confiança o futuro dessas instituições entra numa fase de incerteza absoluta. Creio ser ingénuo não ver esse perigo.

Qual deve ser a resposta dos Estados europeus? Subtilmente clara. Deve assentar, concretamente, na firmeza, no distanciamento diplomático enquanto se continua a insistir no valor das alianças, que não devem comprometer a cooperação multilateral. Os dirigentes europeus também devem sublinhar que é vital pôr um termo, sem mais demoras, às agressões armadas atualmente em curso. Mais ainda, a Europa precisa de compreender que uma realidade internacional imprevisível e baseada na subordinação a um aliado problemático favorece a centralidade política de outros Estados, no caso a China.

A China procura ser tida como um baluarte de estabilidade e o pilar mais sólido do multilateralismo. A grande questão, além de ser uma potência autoritária, é saber se a economia chinesa conseguirá sustentar esse papel de liderança global que lhe cai assim no colo.

De qualquer modo, a Europa não pode sair a perder nessa competição sobre a centralidade. Qualquer desequilíbrio que favoreça uma superpotência, mesmo uma aparentemente previsível como a China, contém, a prazo, um grande risco de conflito.

Nesta Páscoa, a mensagem que ouso dirigir aos líderes europeus resume-se assim: ressuscitar é fundamental.

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