José Pedro Martins Barata (1929-2026) era alguém que poderia ter vivido no Renascimento. Homem de uma cultura universalista, foi marcante em todos os domínios em que trabalhou. Era um grande Arquiteto e um artista plástico de traço inconfundível. Alguém disse dele, com inteira propriedade, que falava a desenhar. Ao olharmos a sua biografia ficamos maravilhados. Na cidade de Lisboa esteve no plano diretor em 1963 e no Centro de Estudos de Urbanismo e Habitação. No Ministério da Educação, dirigiu o Gabinete de Estudos e Planeamento e fez parte da equipa fundadora da Universidade Nova de Lisboa. Nos Correios desenhou 52 emissões de selos, seguindo as passadas de seu pai Jaime Martins Barata, tendo sido distinguido com um grande prémio internacional. Foi fundador da Cooperativa dos Gravadores Portugueses e do Centro Português de Design. A sua biografia não pode resumir-se, uma vez que pela sua inteligência e saber foi sempre abrindo novos horizontes, como no Instituto Nacional de Administração (INA), que tanta falta faz, no Instituto Português de Arquivos ou no Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, além da presença ativa no Município de Lisboa, quer como vereador, quer como membro da assembleia municipal. Como professor catedrático convidado do Instituto Superior Técnico, foi um dos fundadores do curso de Arquitetura, que teve um papel estratégico essencial no panorama do ensino em Portugal. Martins Barata foi um grande amigo e um mestre, cujos conselhos foram sempre preciosos, pela sua sagacidade e inteligência e pela compreensão da cultura como um sinal de progresso e emancipação.
A família de Martins Barata é uma das mais notáveis no campo artístico em Portugal, conhecemo-la como a “tribo dos pinceis”. Desde Alfredo Roque Gameiro, um dos nossos maiores pintores, passando pela aguarelista Helena Roque Gameiro, por Leitão de Barros, cineasta e escritor, célebre autor dos Corvos, pela ilustradora Raquel Roque Gameiro, por Jaime Martins Barata, exímio artista plástico, e por sua mulher Mamia, Maria Emília, também ilustradora infantil e científica afamadíssima. Falo apenas dos nomes mais destacados, num conjunto da maior importância, pela qualidade da obra produzida e pela ligação a nomes marcantes do mundo literário e cultural, como António Sérgio, Fernanda de Castro ou Carlos Selvagem. José Pedro era um conhecedor insaciável da língua e da literatura portuguesa. Não esqueço o magnífico desenho que me ofereceu representando o Padre António Vieira, que tenho em lugar de destaque em minha casa e que constitui uma lição de vida que devemos lembrar: “Se servistes a pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma”. Com esta lembrança homenageio a um tempo o amigo e o seu exemplo, mas também o “Imperador da Língua Portuguesa” e extraordinário orador sagrado no Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma de 1669.
E nesta semana recordo ainda alguém que fez da cultura uma realidade viva. Fico grato a Margarida Gil por O Filme do Meio, que vi no âmbito do DOC Lisboa, e de que muito gostei. Um diálogo literário inesperado entre dois saudosos amigos, Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho, na feitura de O Livro do Meio (2006) , completado pela releitura exímia de Luísa Costa Gomes, que revejo sempre com gosto, e Fernando Cabral Martins. Afinal, é da cultura como vida que devemos cuidar, como José Pedro Martins Barata nos ensinou.