A convivência pacífica é também uma conquista de Abril

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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Há momentos na vida democrática de um país que exigem uma resposta clara e inequívoca. O ataque à Marcha pela Vida, no passado fim de semana, foi um desses momentos. E, no entanto, o silêncio ou a quase indiferença que se seguiu diz muito sobre o estado em que deixámos cair o debate público. Não se tratou de um incidente menor, de um desentendimento ocasional ou de um excesso momentâneo. Foi um ataque deliberado contra pessoas que se manifestavam de forma pacífica, incluindo famílias com crianças pequenas e até bebés, colocados em risco por motivações puramente ideológicas. Isso deveria ter chocado o país. Não chocou o suficiente.

A democracia não é o melhor sistema político porque garanta governos mais competentes, mais rápidos ou mais eficientes. Nunca foi essa a promessa. A democracia é o melhor sistema porque é o único que assegura a transição pacífica do poder entre forças políticas diferentes, em períodos previamente definidos, sem violência, perseguições ou purgas. E, sobretudo, porque é o único que permite a convivência civilizada entre pessoas que pensam de forma diferente e têm crenças diferentes. A democracia é, antes de tudo, um pacto de coexistência que torna possível vivermos em paz uns com os outros.

Direitos Reservados

Este pacto, porém, está hoje sob ataque. Não apenas pelos demagogos e populistas de esquerda e de direita que exploram as emoções mais básicas, mas também pelos fanáticos que, em nome de alegados bens maiores, se sentem autorizados a recorrer à violência para impor a sua visão do mundo.

A História ensina-nos que é precisamente quando alguém se convence de que está a salvar a Humanidade que esta corre maior perigo.

O que aconteceu no passado fim de semana não foi um episódio isolado. Foi mais um sinal de alarme, mais um lembrete de que a democracia portuguesa, apesar de sólida, não é imune às mesmas forças que corroem outras democracias pelo mundo fora. Junta-se a outras ameaças, como as que vêm da extrema-direita racista e xenófoba, que procura transformar o medo em programa político e a divisão em método de ação.

Portugal continua a ser um país livre, pacífico e democrático, onde cada um tem o direito de acreditar no que quiser ou em nada, desde que respeite a liberdade dos outros. Esta é, talvez, a nossa maior riqueza coletiva. E é também a mais frágil, porque depende de algo tão simples e tão difícil como o respeito mútuo.

"Portugal continua a ser um país livre, pacífico e democrático, onde cada um tem o direito de acreditar no que quiser ou em nada, desde que respeite a liberdade dos outros. Esta é, talvez, a nossa maior riqueza coletiva.”

Há quem desvalorize o sucedido com o argumento de que os manifestantes, ao serem contra a legalização do aborto, estariam a opor-se à liberdade de escolha das mulheres e que, por essa razão, se puseram a jeito. Esse raciocínio ignora um ponto essencial: tratava-se de uma manifestação pacífica e legal. Quem recorreu à violência, de forma aparentemente premeditada, não foram os participantes da marcha.

Cabe-nos, a todos, sejamos de esquerda ou de direita, crentes ou não-crentes, defender a democracia. Não apenas quando nos convém, não apenas quando são os nossos a serem atacados, mas sempre. Porque a democracia não se protege sozinha. E quando começamos a tolerar a violência contra quem pensa diferente, abrimos a porta a algo muito mais perigoso. Hoje são os participantes da Marcha pela Vida; amanhã poderá ser qualquer outra causa. E, se entrarmos nessa espiral, a convivência pacífica entre todos os portugueses, uma das grandes conquistas de Abril, deixará de ser possível.

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