A confusão entre perigo e risco em saúde

Filipe Froes

Doutorado em Saúde Pública e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública

Publicado a

O maior perigo na vida

é não correr riscos.
 

 
 William Arthur Ward

Escritor norte-americano e autor

de importantes citações sobre

educação e liderança (1921-1994)
 

 O termo perigo deriva do latim periculum e designa uma situação, condição ou ameaça que pode causar dano. Ao substantivo perigo (em inglês, hazard), na origem associado à ideia de enfrentar algo incerto ou ameaçador, corresponde o adjetivo perigoso (em inglês, hazardous), que descreve algo que envolve perigo ou pode causar dano. O termo risco (em inglês, risk) vem do italiano antigo rischio. Foi usado inicialmente no contexto marítimo e representa a probabilidade de o perigo causar dano.

Por outras palavras, algo muito perigoso pode representar um risco praticamente nulo para as pessoas. Veja-se, por exemplo, viajar de avião. Pelo contrário, uma situação com pouco perigo pode constituir um risco elevado. É o caso da substituição de uma lâmpada por uma pessoa idosa e fragilizada que tem de se equilibrar num escadote. Nessa situação, o risco aumenta com a idade, a altura do escadote e o estado do piso.

Em saúde, é frequente a confusão entre perigo e risco, sobretudo entre quem não domina os assuntos e ignora a própria ignorância. Todos os fármacos ou intervenções têm perigos associados e, para qualquer pessoa a quem é prescrito um medicamento ou realizada uma intervenção, o risco nunca é zero.

Compete às autoridades de saúde, às entidades regulamentares e aos profissionais de saúde monitorizarem o perigo e o risco em cada situação e avaliarem a ocorrência de complicações. Sabe-se que estas análises são dinâmicas. O perigo pode variar conforme o momento e as circunstâncias e a probabilidade de ocorrência depende das características individuais. A obrigação é sempre a mesma: avaliar benefícios e riscos, minimizar o perigo, e identificar quem está em maior risco e quem mais beneficia do tratamento. A alternativa também é conhecida: não fazer nada e, por vezes, criticar quem soube e decidiu agir.

Veja-se o exemplo do amplamente utilizado e muito seguro paracetamol. Os efeitos adversos mais comuns são raros na dosagem habitual e incluem queixas gastrointestinais e reações alérgicas. O efeito adverso mais grave é a lesão hepática. Nos Estados Unidos, o paracetamol é a principal causa de insuficiência hepática aguda e está associado,todos os anos, a milhares de hospitalizações e a centenas de mortes.

Se valorizássemos apenas o perigo, ninguém tomaria paracetamol. Nenhuma entidade, instituição ou profissional de saúde o alertará para essa situação, porque sabe que, em condições normais de utilização, os riscos podem existir, mas são mínimos.

Em conclusão, a vida está cheia de perigos e o maior risco é não viver. Neste caso, viver com dores por seguir o conselho de quem não sabe distinguir perigo de risco.

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