A cegueira ideológica e a infantilização estratégica europeia

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Em duas notícias aparentemente desconexas desta semana ficou bem patente, para quem quiser ver, o nítido retrato da incapacidade estrutural da Europa para ter uma relação adulta, realista e soberana com a sua própria Defesa.

O primeiro episódio passou-se com a Marinha Real britânica. Em plena fase de testes de drones marítimos de elite destinados às Forças Especiais, auditorias de cibersegurança descobriram que os subsistemas de câmara continham componentes fabricados na China que, sem conhecimento do Ministério da Defesa, transmitiam dados de diagnóstico (heartbeat communications) para servidores em território chinês. Um verdadeiro cavalo de Tróia na força naval do Reino Unido resultante de uma falha grosseira na verificação da cadeia de abastecimento motivada, por um lado, pela busca do menor preço na contratação pública e, por outro, no facto de muitos responsáveis políticos (ou técnico-políticos) em países ocidentais menosprezarem o risco que, realmente, representam adversários de regime como a China.

O segundo caso ocorreu na República da Irlanda e chega a ser absurdo. Para responder a pressões ideológicas e fazer uma demonstração de virtude política relativamente aos conflitos no Médio Oriente, as autoridades irlandesas decidiram suspender contratos e restringir a utilização de tecnologia militar de origem israelita. A consequência foi imediata e… tragicómica: ao desativar e privar de atualizações os sensores térmicos e infravermelhos que equipam a frota do Irish Air Corps, os aviões que transportam os membros do governo simplesmente deixaram de conseguir manobrar em situações de nevoeiro denso. Ou seja, em nome de uma pureza moral de bancada, conseguiram pôr a Força Aérea irlandesa cega.

Na génese destes dois casos está um analfabetismo estratégico que grassa pelas capitais europeias. Do lado britânico, estamos perante uma grave negligência em relação a um adversário sistémico. A China é um estado totalitário e opaco que obriga, por lei, qualquer empresa a colaborar com os seus serviços de informações. Integrar eletrónica chinesa em equipamento militar é, logo à partida, um risco de segurança que deveria fazer pensar duas vezes. Sendo inevitável a utilização de tecnologia fabricada naquele país, o que é possível tendo em conta que a manufatura deste tipo de produtos está, em grande parte, lá deslocalizada, é inadmissível que o governo britânico não tenha assegurado todos os passos da cadeia de abastecimento de forma a que os sistemas produzidos fossem seguros.

Já o episódio irlandês é talvez ainda mais condenatório, pois ilustra uma autossabotagem por mero exibicionismo moral. Eu poderia aqui lembrar que Israel é a única democracia no Médio Oriente, um parceiro de segurança essencial do Ocidente e líder global em inovação de Defesa; que não existe histórico de usurpação de dados ou sabotagem por parte da indústria israelita contra países parceiros. Mas nada disto será preciso. Basta dizer: o poder político preferiu sacrificar a capacidade operacional da própria Força Aérea para fazer ativismo de bancada, colocando em risco a sua segurança nacional em nome de uma ação de propaganda para uma franja do seu eleitorado ver.

Dizer que se gira a segurança de um Estado sob a lente de preconceitos ideológicos é só irresponsabilidade. Achar que se pode tratar aliados e adversários como peças descartáveis numa narrativa de consumo interno revela um amadorismo perigoso num mundo hiperconectado.

Trinta anos após o fim da Guerra Fria, a Europa continua viciada na ilusão do "dividendo da paz". Menospreza o hard power, desmantela arsenais e trata as Forças Armadas como adereços. É esta infantilização estratégica que dá plena razão às críticas mais contundentes à NATO e ao desleixo europeu: o continente habituou-se a viver à sombra do contribuinte americano, enquanto finge que a geopolítica se resolve com declarações de intenção.

Só que as ameaças do mundo são reais e brutais. E quem escolhe fechar os olhos no nevoeiro acabará, inevitavelmente, por se despenhar na realidade.

Diário de Notícias
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