A cartada Ebadi

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Prémio Nobel da Paz em 2003, a iraniana Shirin Ebadi visitou Portugal em 2009 para lançar o livro A Gaiola de Ouro, uma autobiografia da mulher que foi a primeira juíza do país, no tempo do xá, mas depois foi proibida de exercer pela República Islâmica proclamada em 1979, contrária a mulheres a presidir a tribunais. Entrevistei-a então para o DN, juntamente com Lumena Raposo, em Lisboa, num momento em que Ebadi não sabia ainda se poderia regressar ao Irão, pois a contestação popular, após umas eleições presidenciais consideradas manipuladas em favor do candidato favorito do regime, tinha gerado uma onda de perseguição aos críticos dos ayatollahs, mesmo os que optaram pela via pacífica, como a antiga juíza.

Hoje, quando se lê nos jornais os textos biográficos sobre a famosa antiga juíza que, depois, conseguiu exercer como advogada, 2009 surge como o ano do exílio definitivo em Londres, pois a relativa proteção que lhe dava o ser uma premiada Nobel já não era suficiente para garantir a sua segurança.

"Ora, Ebadi, que em janeiro, quando Khamenei ordenou a repressão violenta das manifestações contra o regime, apelou a que os Estados Unidos viessem em proteção do povo iraniano, foi agora designada líder de uma Comissão de Justiça de Transição, para atuar em caso de fim da República Islâmica."
"Ora, Ebadi, que em janeiro, quando Khamenei ordenou a repressão violenta das manifestações contra o regime, apelou a que os Estados Unidos viessem em proteção do povo iraniano, foi agora designada líder de uma Comissão de Justiça de Transição, para atuar em caso de fim da República Islâmica."Vasco Neves / Arquivo DN

Uma segunda Nobel da Paz iraniana, Narges Mohammadi, premiada em 2023, continua presa. Mohammadi, que seguiu a luta de Ebadi, é defensora dos Direitos Humanos e, apesar dos apelos do marido e filhos, exilados em França, foi condenada mais uma vez em vésperas do início da guerra por atividades contra o regime fundado em 1979 por Khomeini e depois, de 1989 até há semanas, liderado por Ali Khamenei.

Depois da morte do Guia Supremo nos ataques israelo-americanos iniciados a 28 de fevereiro, um filho de Khamenei, Mojtaba, terá sido eleito para o cargo, mas são muitas as dúvidas sobre se realmente governará o Irão, ou se são os militares que, de facto, lideram a resistência a Israel e Estados Unidos, cujos objetivos de guerra são pôr fim às ambições nucleares da antiga Pérsia e também forçar uma mudança de regime.

Ora, Ebadi, que em janeiro, quando Khamenei ordenou a repressão violenta das manifestações contra o regime, apelou a que os Estados Unidos viessem em proteção do povo iraniano, foi agora designada líder de uma Comissão de Justiça de Transição, para atuar em caso de fim da República Islâmica.

Foi um convite do mais influente dos líderes da oposição externa iraniana, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão. Desde que a guerra começou, Pahlavi, que estava de visita a França, onde vive a mãe, fez de Paris a sua base para preparar o futuro governo de Teerão. Ainda esta quarta-feira, o diário Le Monde explicava como o herdeiro do trono está a construir uma rede na diáspora, tanto na Europa, como nos Estados Unidos, acreditando que a queda da República Islâmica se aproxima. Isto apesar da capacidade de resistência do regime, que recusa ceder a americanos e israelitas, lança drones e mísseis até contra os países árabes e aposta no bloqueio do Estreito de Ormuz para destabilizar o abastecimento mundial de petróleo e gás natural e gerar pressões sobre os Estados Unidos para pararem uma guerra que começa a ter impacto na economia internacional.

Sobre esta guerra, sabe-se como começou, sabe-se também que Donald Trump prometeu que seria breve, mas é imprevisível quando terminará. A resistência do regime, apesar do maior poderio militar americano e israelita, complica os cálculos, e o facto de continuar, mesmo com eliminação de governantes, pode significar que há uma linha dura disposta a tudo, e que não há uma corrente moderada com possibilidade de tentar uma negociação com o presidente americano para a paz e uma transição. Também é incerto se o Irão, com os duros ataques desta guerra, se conseguirá manter unido pela força do nacionalismo persa ou se haverá separatismos em ação, como o curdo, ou até mesmo uma guerra civil generalizada, pois é evidente que grande parte da população não se revê no regime fundado em 1979, mesmo que receie agora sair à rua, por todas as razões possíveis.

"Para Pahlavi, construir uma aura de credibilidade é vital. Ao juntar Ebadi à sua causa, quer ganhar força na opinião pública global, na diáspora iraniana e no Irão.”

E se a incerteza sobre o que se passa dentro do regime e dentro do país é muita, também o que vale a oposição externa é uma incógnita. Pahlavi é uma figura conhecida, com bons contactos nos Estados Unidos (mas sem convencer Trump), mas se houve quem gritasse o seu nome nas manifestações de janeiro, também há quem se lembre da polícia política do tempo da monarquia. Ele diz que não quer regressar para refundar a monarquia, mas sim para instaurar uma democracia, sendo pouco claro como se articularia com outras figuras da oposição.

Portanto, para Pahlavi, construir uma aura de credibilidade é vital. Ao juntar Ebadi à sua causa, quer ganhar força na opinião pública global, na diáspora iraniana e no Irão.

Na tal entrevista, a Nobel denunciava a falta de respeito do regime pelos Direitos Humanos, bem como as eleições fraudulentas, e criticava duramente a degradação da condição feminina. Também lhe fizemos duas perguntas sobre a ambição nuclear da República Islâmica. Questionada se a insistência no nuclear prejudicava a relação do Irão com o mundo, respondeu: “É óbvio e, se não pararem com o processo, ainda será pior.” Depois, à pergunta : e o povo tem noção disso? Disse: “O povo está mais preocupado com o desemprego, a inflação, a repressão, do que com a questão nuclear.”

Veremos se esta cartada Ebadi de Pahlavi vale algo num futuro do Irão que se decide num tabuleiro extremamente complexo.

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