Luís Montenegro jurou aos portugueses que não vai ser “o pai da austeridade”. É um truque velho e ele domina-o bem. Remete para um passado doloroso, de sacrifícios, para tentar assustar as pessoas enquanto ele próprio se pinta como um governante responsável. Nunca é ele quem aperta. É sempre o outro, o adversário, o passado. Ele só protege.
Então quem aperta? O Estado, decerto que não. Em 2025, a despesa pública cresceu mais 6,6% num único ano. O Governo prometeu a Bruxelas travar o crescimento da despesa em 5,1% para 2026. Vai gastar 5,6%. E, segundo a Comissão Europeia, Portugal terá em 2027 o segundo maior desvio de toda a Zona Euro no cumprimento destas regras. Não é a Grécia, não é a Itália, é Portugal, que Montenegro apresenta na Europa como exemplo de rigor.
E é aqui que o discurso de Montenegro cai por terra. O “equilíbrio” de que ele tanto se gaba não vem de o Estado gastar com contenção. Vem de os portugueses pagarem mais impostos. A carga fiscal em 2025 ficou em 35,4% do PIB. Em 2023, antes de ele chegar a São Bento, era 35,3%. Cinco actualizações de IRS anunciadas em conferência de imprensa, e a factura que os portugueses pagam ao Estado subiu, não desceu.
Que fique claro, e sem margem para distorção, a questão não é o Governo dar mais apoios aos combustíveis. Um subsídio pontual não resolve nada, só compra tempo com dinheiro do próprio contribuinte. A questão é o contrário. É o Estado continuar a crescer sem limite, e depois usar essa despesa descontrolada como desculpa para recusar aos portugueses descidas de impostos a sério. Não se pede ao Governo que desequilibre as contas. Pede-se que, numa altura de aperto para as famílias, seja finalmente o Estado a fazer o esforço.
O Governo até tem, desde 2025, um ministério inteiro dedicado à reforma do Estado. E o ministério que devia tornar o Estado mais pequeno e mais eficiente aumentou o seu próprio orçamento em 71% em 2026. A despesa do país continua a crescer acima do prometido a Bruxelas, ano após ano, como se o ministério existisse para anunciar reformas, não para as fazer.
Montenegro pode continuar a dizer que não vai ser o pai da austeridade. Mas a austeridade já cá está, só que ao contrário do que os portugueses temiam. Não vem em cortes anunciados no Parlamento. Vem escondida numa carga fiscal que não desce, a pagar um Estado que continua a crescer e que ninguém, neste Governo, teve coragem de fazer emagrecer.