Para os mais distraídos: ocorreu um terramoto sem precedentes na IA na sexta-feira, 12 de junho. O governo dos EUA, recorrendo a poderes extraordinários de segurança nacional, obrigou a tecnológica Anthropic a desligar globalmente os seus novos e mais potentes cérebros digitais — o Claude Fable 5 e o Claude Mythos 5. A ordem, que na letra da lei determinava que “nenhum cidadão estrangeiro” pudesse tocar no código, fez com que nem alguns dos engenheiros da empresa se pudessem aproximar de um teclado. Como tal, o resultado prático foi o "apagão" global destes modelos de ponta da empresa.Tudo se deveu a um jailbreak — uma falha de código de segurança que permitia aos utilizadores contornarem as barreiras impostas à IA, expondo vulnerabilidades de software graves noutros sistemas. Ou seja, era possível usar o Fable 5 e o Mythos 5 para “piratear” outros sistemas.Muito se tem dito e escrito sobre este caso — e muito ainda se vai dizer, provavelmente. Muita comunicação social (tanto generalista, como até alguma especializada) já foi rápida em apontar o dedo a Donald Trump e a uma suposta vendetta privada contra a Anthropic, que há alguns meses deu grandes títulos por (supostamente) ter feito frente ao Pentágono, quando se soube que os seus modelos foram usados para ajudar a escolher alvos na intervenção na Venezuela, que capturou o então presidente Nicolás Maduro.Mas, curiosamente, são menos os que notam a realidade que, de tão óbvia que é, parece impossível ser real: quem vende o apocalipse para fazer dinheiro e obter prestígio acaba por ver o Estado comprar a narrativa para impor o controlo real. Ao ver-se forçada a retirar do mercado mundial a sua tecnologia mais inovadora, escassos dias após o lançamento, a Anthropic só colheu o que semeou.Dario Amodei, o CEO da Anthropic, construiu o império da sua empresa sob a bandeira da "segurança existencial". Ao contrário da OpenAI, de onde saiu em rutura, Amodei apresentava-se como o paladino da ética, pedindo ativamente a regulação do governo. Tal como escrevi neste espaço na semana passada, é o clássico marketing do humblebrag (que muitos fãs lhe rendeu, diga-se): ao sussurrar aos ouvidos de Washington que as suas ferramentas são tão perigosas que requerem uma coleira estatal, a empresa não só insuflou a sua avaliação para quase um bilião de dólares antes do seu IPO, como tentou erguer barreiras regulatórias para asfixiar futuros concorrentes mais pequenos.O problema é que o Estado nunca — absolutamente nunca — regula com a delicadeza de um cirurgião. Atua, hoje e sempre, com a força bruta de uma marreta militar. Ao catalogar a sua tecnologia com a designação pretensiosa de classe Mythos e ao mantê-la sob o manto de mistério do Project Glasswing, a Anthropic convenceu Washington de que tinha nas mãos o equivalente digital a urânio enriquecido. Bastou que a Amazon encontrasse uma vulnerabilidade comum para que o secretário do Comércio, Howard Lutnick, ativasse o pânico geopolítico, cortando o acesso global ao modelo a qualquer cidadão estrangeiro — incluindo aos próprios cientistas estrangeiros da Anthropic.Amodei foi ingénuo? Talvez. Mas provavelmente sobreavaliou a sua própria influência — e a dos seus mais recentes amigos — nos circuitos de poder em Washington. E não contou com o fator do seu “senhorio”…É que esta crise expôs também a gritante falta de soberania da Anthropic, que funciona como uma "inquilina de luxo" dos colossos tecnológicos por não possuir servidores próprios. Quem descobriu o perigo e ligou diretamente para a Casa Branca a dar o alarme técnico? Foi Andy Jassy, o CEO da Amazon, o principal investidor da Anthropic e quem detém a maioria dos data centres onde é executado o software da empresa de IA. Perante o risco reputacional e de segurança para a sua infraestrutura de nuvem, a Amazon não hesitou em entregar o seu parceiro em bandeja de prata ao poder federal, paralisando a operação da startup em poucas horas.Agora, enquanto a Anthropic definha no limbo regulatório, a concorrência, como o GPT-5.5 da OpenAI, com capacidades semelhantes, continua online e a faturar.Ao banir o acesso ao Claude Fable 5, Washington provou que vê a Inteligência Artificial não como um bem comum, mas como uma arma militar de posse exclusiva americana. Amodei andava a dizer que queria que lhe pusessem uma coleira ética, pois acabou com um açaime nacionalista. Nesta fase, resta-lhe reclamar, dizendo que os modelos rivais são (afinal…) tão bons quanto os seus, pelo que também deviam estar “presos”. Seria risível, se não fosse tão triste.