Como alguns em Silicon Valley vendem o apocalipse para ocultar a realidade... E fazer dinheiro

Ricardo Simões Ferreira

Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

Publicado a

A IA vai matar-nos a todos? Num mundo em que a ameaça nuclear continua não apenas presente como cada vez mais facilmente disponível a qualquer fanático (Coreia do Norte, Irão, um terrorista com uma mala numa grande cidade...) eis que surge mais uma paranoia. O recente lançamento do livro If Anyone Builds It, Everyone Dies, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, é o culminar de uma histeria coletiva cuidadosamente cultivada por uma fação específica em Silicon Valley. Os autores defendem que os microchips de Inteligência Artificial devem ser vigiados militarmente como se fossem urânio enriquecido — exigindo inspeções físicas internacionais de caráter obrigatório e, no limite, bombardeamentos preventivos a centros de dados rebeldes!

Esta não é uma tese radical. É simplesmente uma das estratégias de marketing mais lucrativas e cínicas da atualidade. Ao converter o debate técnico em ficção científica apocalíptica, alguns operadores do setor conseguem um duplo efeito: capturam a atenção pública com narrativas quasi-religiosas da senciência iminente da IA (que os especialistas sabem estar longe de ser atingida); e propor leis restritivas (intervenção governativa ou supraestatal, portanto) que, sob o pretexto de salvar a Humanidade, fecharão as portas do mercado a futuros concorrentes. Ou então, ajudarão a construir a “nova ordem mundial” que ideologicamente propugnam. É um casamento de conveniência entre alguns magnatas do capital, que veem aqui uma oportunidade para reduzir concorrência, e mentalidades estatistas (da esquerda ou da direita do espectro político, é indiferente), cujos sonhos húmidos são, sempre, o controlo do indivíduo e dos meios de produção.

O caso mais fascinante deste teatro do absurdo é o da Anthropic, a nova coqueluche das elites bem-pensantes. Fundada sob o pretexto de ser uma "empresa de benefício público" dissidente da OpenAI, a companhia de Dario Amodei assumiu a liderança da retórica da virtude. Amodei passeia-se por fóruns de prestígio, de Davos a comités senatoriais, manifestando uma angústia quase filosófica sobre modelos LLM supostamente à beira da autonomia total ou de uma mítica senciência prestes a ser atingida.

A encenação do "humblebrag" — a gabarolice disfarçada de autocrítica — resulta inevitavelmente numa coisa: uma brilhante jogada de relações públicas com consequente captação de investimento. Ao sugerir que o seu próprio software é tão perigosamente potente que exige moratórias e severa supervisão governamental, a Anthropic coloca-se (e artificialmente) no mesmo patamar de escala e capacidade dos autênticos titãs do setor, a Google e a OpenAI/Microsoft. Se o Claude é rotulado como "perigoso demais" para ser libertado sem freios, o público assume, por osmose, que ele deve ser tão avançado quanto os seus rivais mais ricos e poderosos. A narrativa do perigo existencial transforma-se, assim, no derradeiro argumento de venda, embrulhado numa conveniente aura de responsabilidade cívica que atrai milhares de milhões em capital de risco.

No plano material, contudo, a realidade técnica e infraestrutural é muito diferente. A Anthropic não joga na mesma divisão de escala física dos seus concorrentes diretos. A empresa de Amodei não possui centros de dados próprios significativos, dependendo inteiramente dos servidores e do capital de gigantes como a Amazon e a Google. Enquanto a gigante detida pela Alphabet controla toda a cadeia de valor — desde chips proprietários (TPU) de última geração às redes globais de fibra ótica e aos dados massivos de milhares de milhões de utilizadores do Android, Pesquisa e YouTube —, a Anthropic é uma inquilina tecnológica de luxo. Sem essa soberania infraestrutural, a sua capacidade de treinar modelos de fronteira à escala dos líderes de mercado é estruturalmente limitada. Ao desviar o debate da infraestrutura real e dos monopólios de hardware para o "perigo existencial" abstrato, a sua real inferioridade de engenharia industrial é habilmente camuflada por uma suposta superioridade moral, que é amplamente aplaudida pela opinião pública tecnocética — e que serve para justificar avaliações de mercado astronómicas.

A hipocrisia consolida-se de forma flagrante nos bastidores deste discurso. Ao mesmo tempo que recolhe a simpatia da esquerda política, de académicos (vamos chamar-lhes bem-intencionados) e de reguladores europeus (idem…) com os seus manifestos de contenção e teorias de "IA constitucional", a Anthropic joga o mais antigo e pragmático jogo do poder corporativo. A sua parceria estratégica com a Palantir — o ícone máximo da vigilância de dados militares — e com a AWS Defense para fornecer o seu modelo Claude à comunidade de inteligência dos EUA desmascara a narrativa humanista. Enquanto os executivos teorizam sobre os perigos éticos da autonomia das máquinas perante plateias progressistas, as suas equipas de vendas integram essas mesmas ferramentas no coração do complexo militar-industrial norte-americano – com o CEO a vir fazer contenção de danos quando se ficou a saber, via fuga de informação, que o modelo de IA estava a ser usado para identificar e sugerir alvos de ataque durante uma operação militar.

É um filme que já vimos uma e outra vez, mas parece que nunca falha: o humanismo e a ética servem a espuma dos dias e acalmam o público geral; o lucro real, a influência geopolítica e a faturação robusta fazem-se no ecossistema de Defesa de Washington.

Afinal, a própria Google fez exatamente o mesmo, nos primeiros anos: escreveu Don’t be evil como lema de empresa, em 2000 – para servir de contraste com a Microsoft que era vista como o Império do Mal (numa alusão a Star Wars) no final da década de 90 –, mas, claro, comportava-se como uma empresa normal, igual a todas as outras. Obviamente.

(Em 2018, quando foi criada a Alphabet, a empresa-mãe que integrou a Google, o mote passou para Do the right thing… O "Don't be evil" foi remetido para uma discreta nota final no código de conduta.)

Alimentar paranoias sobre máquinas que estariam a ficar quase conscientes ou apocalipses de silício é fazer (consciente ou semiconscientemente) um elaborado ethics washing. O risco real da IA não reside numa revolta autónoma de Terminators digitais, mas na centralização oligárquica de recursos computacionais, no impacto laboral imediato sobre a classe média trabalhadora, na pilhagem sistemática de propriedade intelectual e na pegada ecológica insustentável dos novos templos de processamento de dados. Debater se os chips devem ser inspecionados militarmente à saída da fábrica é a cortina de fumo perfeita para distrair legisladores e cidadãos, enquanto os monopólios se consolidam, as patentes se registam e as chaves do futuro económico são entregues a um punhado de CEO não-eleitos. Estes arautos do medo em Silicon Valley não temem o fim do mundo – usam-no como o seu melhor, mais lucrativo e inquestionável argumento de vendas. Com o simples objetivo, como sempre, de serem eles – e não os cidadãos, consumidores – a controlar os destinos do mundo.

Diário de Notícias
www.dn.pt