A angústia do reformado à hora do antigo emprego

Luís Castro Mendes

Embaixador jubilado e escritor

Publicado a

Writer's block issues out of fear

– but of what?

Dawn Raffel,
The Truth about Writer’s Block

Li no Público um conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher) continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer sentido em começar o dia.”

Enquanto reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”), confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe, felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido: a escrita da poesia.

Eu sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas, depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a minha vida e os meus projetos.

Nada há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...

Não sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na sua Metafísica, estabelece que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida, do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.

O vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou, nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.

Então será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.

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