2%? ‘You must be kidding!’

Paulo Gonçalves Marcos

Presidente do SNQTB - Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários

Publicado a

Acreditamos, e temos feito disso fé nesta coluna, no diálogo social como fonte de progresso das sociedades. E, por isso, temos manifestado a nossa discordância sobre como, em Portugal, os “donos do regime” se arvoram em únicos negociadores de legislação laboral ou fiscal, nos fóruns de Concertação Social oficiais. E temos também manifestado o nosso espanto e repúdio por certos dirigentes que dizem uma coisa e praticam outra.

A alguns patrões, felizmente poucos, que pregam a flexibilidade laboral como condição para melhores salários, apetece chamar-lhes apenas mentirosos. E a alguns sindicalistas, felizmente também minoritários, que proclamam posições maximalistas em Concertação Social para depois fazerem acordos minimalistas no sector ou na empresa, não passam de hipócritas.

Temos bem presente o que aconteceu em 2022. Com todos os sinais de expansão monetária dada pelo quantitative easing e pela expansão orçamental como resposta à covid, a inflação atingiu um pico superior a dez pontos percentuais em agosto desse ano e o resultado médio no ano de perto de 8%. E o extrair do excedente dos trabalhadores, e consumidores, causado por aumentos salariais muito, mas mesmo muito abaixo, dos valores da inflação.

E isto a propósito do sector da intermediação financeira (banca) que beneficia em épocas de inflação moderada e taxas de juros nominais mais elevadas. Que pela normalização das taxas de juro conseguiu recuperar níveis bem razoáveis de rendibilidade acionista. Mas que por uma política de valorização salarial minimalista, em média dos últimos 15 anos de metade da valorização salarial nacional, tem condenado os bancários, as suas famílias, e os seus subsistemas de assistência médica-social a um progressivo empobrecimento. E que para empresas do mesmo grupo financeiro europeu, paga aos seus trabalhadores portugueses muito menos do que paga a espanhóis ou franceses.

Quando o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas elaboram previsões de inflação já perto dos 3%, continuarem os bancos a insistir em aumentos de tabelas remuneratórias de 2% é surreal. Assim se vai destruindo a coesão social e empobrecendo a classe média. E ainda querem facilitar os despedimentos e a perpetuação de contratos a prazo?

Diário de Notícias
www.dn.pt