135 espectadores estão “chateados”

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Leio as notícias sobre o estudo O Cinema Português aos Olhos do Público, da responsabilidade da NOS, a maior empresa de distribuição e exibição do país, efetuado pelo seu departamento de Market & Costumer Intelligence. Fixo-me num dos valores divulgados, sobre a avaliação que o público faz dos filmes portugueses: 45% consideram o cinema português “chato”.

É normal, é mesmo salutar, que uma empresa que detém perto de metade das salas portuguesas (450 no total, segundo dados recentes) procure quantificar e qualificar os elementos do seu negócio. Resta saber se tal preocupação é acompanhada por uma consciência ativa das linguagens que se aplicam e partilham, ou se se limita a ecoar linguagens que contrariam a simples vontade de compreender a complexidade dos problemas – políticos e culturais, quer dizer, de política cultural – que estão em jogo.

Atrevo-me mesmo a supor que a maioria dos responsáveis pelo estudo da NOS nem sequer tinha nascido quando, há mais de meio século, já como jornalista, comecei a ouvir que o cinema português era “chato”. Aliás, com um apêndice que também não desapareceu: além de “chato”, esse cinema seria legitimado pelo pretensiosismo de alguns críticos, também “chatos”, que não gostam de comédias. O assunto é exterior ao estudo da NOS, mas suscita-me uma interrogação paralela: como lidar com essas formas de estupidez que as décadas foram relançando e, pior um pouco, reforçando?

Fotograma de 'Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar'.
Fotograma de 'Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar'. FOTO: Arquivo

O problema nuclear do estudo da NOS é o de se equivocar sobre a suposta transparência do objecto – “cinema português” – que ocupa o seu centro. Em boa verdade, o estudo reflete o problema quando é referido o facto de alguns inquiridos citarem a série Rabo de Peixe como um dos últimos “filmes” portugueses que consumiram... Há outra maneira de dizer isto: uma percentagem significativa desses mesmos inquiridos não sabe do que se está a falar.

Perguntar o que quer que seja sobre “cinema português” é o mesmo que querer construir um inquérito sobre “cinema americano”. Haverá quem pense em Martin Scorsese ou James Gray, como haverá quem (e não tenho dúvidas de que será a maioria) apenas conheça as produções da Marvel e afins. Valeria a pena tentar algo bem diferente, por exemplo alinhando uma série de nomes: Mário Barroso, Margarida Cardoso, Teresa Villaverde, Pedro Pinho, Diogo Varela Silva... todos com filmes estreados em 2025. E perguntar: qual a relação destes nomes com o dito “cinema português”? Seria mais simples – ficaríamos a saber que a maioria dos inquiridos nada sabe sobre os seus trabalhos.

O que (quase) ninguém quer enfrentar é a redução da cultura cinematográfica portuguesa a uma coleção de destroços, esmagada por uma cultura televisiva de novelas, Reality TV e futebol que, de facto, gerou outros públicos. Sem esquecermos que há canais de notícias que passaram a menosprezar a mais básica informação sobre a atividade do cinema (português ou não) e de todas as outras artes – aliás, perante o silêncio ensurdecedor da maior parte dos membros dos respetivos meios profissionais.

"Como compreender as relações do público com o cinema português? Talvez começando por reconhecer que esse público desapareceu.”

Não se espera que a NOS analise, ainda menos resolva, todos estes dramas. Em todo o caso, faria sentido que, a propósito, a sua política de distribuição e exibição refletisse um pouco sobre o esgotamento do modelo (e das práticas) dos multiplexes que continuam a ser dominantes no mercado.

Entretanto, fica uma dúvida metódica sobre o uso da palavra “chato”. Como é que o adjetivo aparece no estudo? Por geração espontânea nas respostas? Se assim foi, convenhamos que estamos perante um fenómeno surreal: dos 300 inquiridos (já agora, número ridículo para qualquer estudo minimamente consistente, seja em que área for), 45%, portanto 135 pessoas, desembocaram no mesmo conceito pueril de “chateza”. Ou a palavra “chato” foi-lhes apresentada como uma hipótese de resposta?

Observe-se, a propósito, o desastre comercial que é Pai Nosso - Os Últimos Dias de Salazar, de José Filipe Costa, atualmente em exibição (1186 espectadores em 16 ecrãs, nos primeiros quatro dias de exibição). Parece-me ser um dos filmes mais brilhantes que o cinema português gerou em anos recentes - o que, bem entendido, não passa de um pormenor subjetivo. O certo é que o seu distribuidor é a NOS, o que talvez justifique que a sua “intelligence” prepare um novo estudo com um título eloquente: Afinal, estamos a distribuir filmes chatos?

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