Uma outra liberdade!

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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Em pleno fim de semana de comemoração da Revolução de 25 de abril de 1974, vou arriscar escrever sobre liberdade enquanto conceito, provavelmente inusitado: a liberdade de nos movermos, de sermos independentes.

Não é uma provocação exagerada. Basta olhar à nossa volta. Trabalhamos sentados, deslocamo-nos sentados, descansamos sentados. Passamos horas a olhar para ecrãs enquanto o corpo permanece quieto, quase imóvel. Sim, nunca fomos tão sedentários. E o paradoxo, aqui, é que nunca tivemos tanto acesso a informação sobre treino, tantos espaços gratuitos para praticar desporto, tantos eventos desportivos para amadores, tanta promoção da importância de ter um estilo de vida equilibrado e não de excessos - como o excesso de estarmos quietos. É aqui que entra o desporto enquanto gesto quase subversivo.

"Atualmente, há mil e uma formas de treinar sem gastar um cêntimo. Por isso, meus caros, está na altura de inverter esta lógica! O desporto é uma das formas mais básicas de liberdade que temos ao nosso alcance.”

Fazer desporto não deve ser uma obrigação, mas sim uma prioridade pessoal contra a inércia que tem tomado conta da vida moderna. Pedalar, nadar, treinar, caminhar com intensidade, tudo isso são formas discretas de recuperar algo que parece cada vez mais raro, a autonomia física. Porque liberdade também é isto. Ter um corpo que responde. Ter energia para subir escadas sem chegar ofegante, para correr atrás de um filho, para atravessar uma cidade a pé sem sentir que já não temos idade para isso.

O corpo foi feito para se movimentar. Quando o deixamos parado demasiado tempo, algo começa a faltar, mesmo que não saibamos explicar exatamente o quê. O paradoxo é evidente. Para recuperar essa liberdade temos de aceitar disciplina. Temos de sair de casa quando não apetece, treinar quando ver Netflix parece mais confortável, insistir quando o progresso é lento. Parar de pensar no desporto como algo meramente estético ou que só se faz se se tiver tempo. E ter a noção clara de que o desporto há muito deixou de ser um luxo ou um hobby.

Atualmente, há mil e uma formas de treinar sem gastar um cêntimo. Por isso, meus caros, está na altura de inverter esta lógica! O desporto é uma das formas mais básicas de liberdade que temos ao nosso alcance. O treino não liberta apenas o corpo, liberta também a cabeça. As preocupações reorganizam-se, as decisões tornam-se mais claras, o stress perde alguma intensidade. Não é magia, é fisiologia. Mas o efeito é real.

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