Seguimos com Jesus no comando, por Portugal

Gonçalo Santo

Autor do “Rola a Bola”

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Muito se passou nas últimas 3 semanas.

De um ambiente positivo de esperança em relação à abertura de um novo ciclo na nossa seleção, com o selecionador e o capitão em plena harmonia numa espalhafatosa conferência de imprensa, passámos para uma enorme polémica a envolver estes mesmos protagonistas.

Já tudo foi dito relativamente ao tema Ronaldo.

De um lado, há quem continue a não saber distinguir gratidão de subserviência. Muitos não percebem que valorizar e admirar tudo o que Ronaldo fez por Portugal não deve dar “carta branca” para que este prejudique o coletivo com um estatuto, cujo rendimento, aos 41 anos, já não justifica.

Do outro, uma certa franja de oportunistas, que nunca lidou bem com o sucesso de Ronaldo, por diversos motivos, tem procurado reescrever a história. Desde comparações patéticas a outras figuras do Futebol Português até desvalorizações dos feitos de CR7, temos assistido a tentativas de banalizar um legado que é, quer se queira quer não, único e inigualável.

No meio, onde me incluo, está quem anseia por uma solução equilibrada, que, tendo sempre os interesses do coletivo como prioridade, proporcione uma despedida digna da nossa seleção a Ronaldo.

Apesar da desilusão com o capitão, há o reconhecimento de que não se deve resumir mais de 20 anos de compromisso, talento e paixão a uns míseros dias de comportamentos extremamente infelizes.

Enquanto se aguarda pelo desfecho da situação, o que é certo é que a gratidão a um passado, por muito grande que seja, nunca pode ser maior do que a vontade de ver a nossa seleção alcançar grandes feitos.

Neste sentido, o que se passou fora de campo não deve ofuscar o que de tão bom aconteceu dentro das quatro linhas, nesta primeira paragem de seleções, sob o comando de Jorge Jesus.

Mais até do que as importantes 4 vitórias em 4 jogos, há mudanças no comportamento da equipa que abrem boas perspetivas em relação ao futuro da nossa seleção.

Há diferenças radicais entre o que são as intenções de Jorge Jesus e o que eram as ideias de Roberto Martínez.

Com Martínez, Portugal era uma equipa que caía facilmente num registo de posse inofensiva.

Mesmo tendo um lote de excelência de médios e criativos entre linhas, a nossa seleção nunca desenvolveu grandes dinâmicas no seu jogo interior.

Às grandes distâncias entre jogadores juntava-se uma irrefletida insistência no jogo exterior. A maior parte das nossas jogadas terminava em cruzamento para a área. Se não chegássemos ao último terço, como a bola entrava na largura sem se ter criado qualquer vantagem anteriormente, esta voltava para trás, ingressando naquela circulação em U sem qualquer objetividade.

Esta postura tornava o nosso futebol muito previsível e monótono.

Jorge Jesus quer uma equipa bastante mais objetiva e vertical. Em vários momentos do jogo, não tem problemas em entregar a iniciativa ao adversário. Varia em mais ocasiões a sua 1.ª fase de construção entre saídas curtas e longas.

É um facto que ainda falta alguma capacidade para prolongar ataques e controlar o jogo através da posse, mas é seguro dizer que a nossa Seleção está agora consideravelmente melhor no momento ofensivo.

Com bola, Jesus está a implementar uma identidade de jogo que vai ao encontro das características dos nossos melhores jogadores.

Num 4-1-3-2, é notória a intenção de explorar melhor o corredor central e diminuir distâncias entre jogadores para promover combinações curtas.

Já são visíveis dinâmicas de atração por dentro para depois explorar espaços na largura.

Ao contrário do que acontecia com Martínez, onde víamos Nuno Mendes muitas vezes “preso” em funções de construção como 3.º central, temos agora os 2 laterais, em simultâneo, envolvidos no processo ofensivo.

Vitinha também deixou de pegar no jogo em zonas muito recuadas, perto dos centrais. Está agora mais solto, recebendo nas costas da primeira linha de pressão do adversário e tendo influência em diferentes fases do jogo da equipa.

Vemo-lo mais subido no terreno e ativo nas tais combinações curtas com jogadores como Bruno Fernandes, João Félix – nasceu para jogar como segundo avançado, com liberdade posicional – e Gonçalo Ramos.

Todas estas mudanças nas funções dos jogadores fazem com que a fluidez e a clareza de ideias no ataque sejam bastante maiores.

Defensivamente, Jorge Jesus também tem uma abordagem muito distinta de Martínez. Contudo, ainda estamos longe de um nível satisfatório. Há lacunas na transição defensiva. A pressão HxH (homem a homem) que Jorge Jesus pretende ver na equipa, dentro do seu risco inerente, tem margem para melhorar.

A nossa seleção ganha muito com o compromisso sem bola de Gonçalo Ramos, na sua 1.ª linha de pressão. No entanto, quando essa 1.ª linha é ultrapassada, é comum ver a equipa exposta. Nota-se alguma falta de coordenação, agressividade e intensidade tão importantes numa pressão HxH para antecipar e ganhar duelos e segundas bolas.

A somar a isto, temos jogadores cujas próprias características complicam o sucesso deste tipo de ideia.

Sendo obrigados a fazer perseguições individuais e a jogar tão subidos, Rúben Dias e Renato Veiga têm dificuldades na defesa da profundidade. Como dupla, falta-lhes velocidade para controlar tantos metros nas suas costas.

Mesmo os nossos médios, à exceção de Palhinha e João Neves, estão longe de ter o melhor perfil para uma ideia que exige tanto no momento sem bola.

Sobretudo a nível defensivo, Portugal ainda não é uma equipa perfeita. Porém, já existe algo que nunca vimos verdadeiramente com Roberto Martínez: uma identidade de jogo.

Durante demasiado tempo, falámos muito do que queríamos ganhar, mas pouco do coletivo que teríamos de construir para lá chegar.

Ora, as bases desse coletivo já cá estão. Agora é tempo de trabalho sobre elas.

Há motivos para acreditar no caminho traçado por Jesus!

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