A posição ‘9’ é sempre um tema quente nas discussões sobre a nossa Seleção.⠀De certa forma, é natural que assim seja.⠀A gestão que Roberto Martínez tem feito dessa posição está longe de ser unânime.⠀Os 3 pontas de lança portugueses convocados para o Mundial (Cristiano Ronaldo, Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes) têm perfis algo distintos.⠀É evidente que uma equipa que pretenda construir uma identidade vincada deve ter uma ideia clara das características que prioriza no seu ‘9’.⠀Nesse sentido, é inevitável que, tendo em conta que apenas jogamos com uma referência na frente, a opção recaia mais vezes sobre um.⠀Contudo, tão importante como ter uma identidade é a capacidade de interpretação e de adaptação ao que cada jogo exige. Ainda para mais numa competição de seleções, onde cada partida tem uma enorme carga emocional e uma história muito própria, a vertente estratégica tem um peso elevado.⠀Ou seja, face a tudo isto, a não ser que hajam exibições transcendentes, faz pouco sentido que a opção recaia invariavelmente sempre no mesmo, independentemente do adversário ou do momento do jogo.⠀A fase de grupos acabou por revelar que Roberto Martínez discorda deste tipo de raciocínio…⠀Mesmo com 3 jogos com adversários e guiões bastante distintos, a distribuição dos minutos entre os nossos pontas de lança foi bastante desigual.⠀No jogo de estreia, diante da RD Congo, Roberto Martínez deu desde logo sinais de alguma rigidez.⠀Perante o bloco baixo da RD Congo e a nossa necessidade de carregar a área adversária, fez sentido que Ronaldo tivesse feito os 90 minutos.⠀O mesmo não se pode dizer da demora em colocar Gonçalo Ramos em campo (só entrou aos 83 minutos).⠀Insistir em cruzamentos, tendo apenas Ronaldo na área e contando com alguns movimentos de chegada de João Neves, ficou muito curto.⠀Contra o Uzbequistão, o grande “pecado” esteve na gestão física de Cristiano Ronaldo.⠀Com o jogo praticamente resolvido ao intervalo, é complicado perceber o porquê de o capitão ter feito os 90 minutos.⠀Antes de iniciarmos o Mundial, havia quase uma unanimidade sobre a importância de gerir Cristiano Ronaldo.⠀É — ou devia ser — impensável pensar que, aos 41 anos, Ronaldo será capaz de jogar 90 minutos sobre 90 minutos ao longo de — desejamos nós — um mês, mantendo um rendimento elevado.⠀Mais uma vez, Roberto Martínez parece discordar desta forma de pensar…Por último, frente à Colômbia, pode-se dizer que foi bizarro Gonçalo Ramos nem sequer ter entrado em campo.⠀O jogo pedia exatamente um ponta de lança com as suas características: forte na pressão e na reação à perda, mais associativo e com capacidade para segurar a bola e permitir que a equipa tivesse posses mais prolongadas.⠀Percebe-se que seria difícil sentar Ronaldo no banco de suplentes depois do ‘bis’ na ronda anterior.⠀Menos perceptível é que este tenha voltado a fazer os 90 minutos quando pouco ou nada estava a acrescentar ao coletivo e havia uma opção no banco que ia exatamente ao encontro do que o jogo exigia.⠀No final de contas, terminada a fase de grupos, Cristiano Ronaldo foi totalista, Gonçalo Ramos acabou a jogar sensivelmente 7 minutos (mais os descontos) e Gonçalo Guedes nem sequer entrou.⠀Posto isto, fica claro que esta situação merece alguma reflexão por parte do nosso selecionador…⠀Cristiano Ronaldo será sempre um jogador importante frente a adversários que se fechem em blocos baixos. A qualidade na finalização e a inteligência nas movimentações dentro da área são muito úteis.⠀No entanto, esse não será sempre o cenário competitivo que Portugal irá encontrar — como, aliás, demonstrou o jogo com a Colômbia.⠀Gonçalo Ramos é, nesta fase da carreira de ambos, um ponta de lança mais completo. Pode não ter a inteligência nas movimentações dentro da área de Ronaldo, mas acrescenta incomparavelmente mais noutros aspectos, sobretudo sem bola.⠀Em jogos mais divididos, diante de adversários com mais argumentos na saída de bola e capacidade para assumir a iniciativa, a meu ver, deveria haver menos hesitação na hora de apostar em Gonçalo Ramos.⠀Até mesmo Gonçalo Guedes pode ser rentabilizado de forma a ter maior utilidade. Basta recordar o amigável frente ao Chile.⠀Não tendo a presença na área ou a qualidade a jogar em apoios de Cristiano Ronaldo e Gonçalo Ramos, Guedes é mais rápido e forte nos movimentos de ataque à profundidade. Havendo espaços a explorar nas costas da defesa adversária, é uma opção a ter em consideração.⠀Os problemas da nossa Seleção não se resumem à posição de ponta de lança — seria bom que assim fosse.⠀Porém, uma gestão mais eficiente dos minutos distribuídos entre Cristiano Ronaldo, Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes pode ser chave para subirmos o nosso nível exibicional.⠀Pede-se a Roberto Martínez que, na fase a eliminar, ao contrário do que aconteceu na fase de grupos, saiba rentabilizar melhor o trio de pontas de lança que temos disponível.