Responsabilidade, ambição e compromisso olímpico

Fernando Gomes

Presidente do Comité Olímpico de Portugal

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O desporto não se constrói com declarações de ocasião, mas com trabalho persistente, cooperação sólida e objetivos claros. Depois de um primeiro ano de mandato que nos permitiu implementar prioridades e transformar intenções em ação, entramos agora numa fase cada vez mais decisiva. É tempo de acelerar, de continuar a executar e de dar corpo à ambição coletiva de preparar melhor os atletas, apoiar melhor as federações e projetar ainda mais Portugal no panorama do olimpismo internacional.

A Equipa Portugal prepara-se para competir nos Jogos do Mediterrâneo de Taranto 2026, entre 21 de agosto e 3 de setembro de 2026, reunindo 32 modalidades e cerca de 5000 atletas, num evento que marcará a terceira participação de Portugal nestes Jogos, onde o nosso país já soma 49 medalhas.

Para lá da componente desportiva, a nossa participação em Taranto servirá ainda para autoavaliarmos o trabalho que temos desenvolvido no âmbito da organização dos Jogos do Mediterrâneo de Praia de 2027, que se realizam nas praias e no mar de Portimão e Lagoa.

Este é um caminho que o Comité Olímpico de Portugal (COP) tem vindo a construir com as federações e que assenta numa ideia concreta: o alto rendimento exige estabilidade, apoio multidisciplinar e uma cultura institucional que coloque sempre o atleta no centro. É por isso que o COP tem vindo a reforçar a preparação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, um momento que será muito especial para todos os portugueses. Não apenas porque representa o próximo grande objetivo olímpico da Equipa Portugal, mas porque é também o regresso simbólico à cidade onde Carlos Lopes conquistou a primeira medalha de ouro olímpica para Portugal, na maratona de 1984.

Esse facto não é apenas memória, é inspiração, responsabilidade e ambição. Em Los Angeles, queremos voltar com a consciência de que há um legado que nos precede e de que o futuro depende da qualidade do que formos capazes de construir agora.

Estamos empenhados em cumprir esse desígnio e, cumprindo as prioridades que o COP assumiu publicamente para os próximos anos, destacamos a criação de uma equipa multidisciplinar dedicada a dar apoio aos atletas do Projeto Olímpico e às Esperanças Olímpicas, numa lógica de continuidade entre a formação e a excelência.

Nesta enriquecedora caminhada que está a ser feita, sublinho o papel essencial das federações desportivas. São elas que transformam estratégia em treino, treino em competição e competição em resultados, são elas que acompanham o dia a dia dos atletas, longe dos holofotes. Quando uma federação trabalha melhor, o atleta compete melhor; quando o atleta compete melhor, o país inteiro ganha. Essa é a lógica que orienta o COP e que nos deve orientar a todos aqueles que têm responsabilidade no desporto nacional.

Olimpismo ao serviço da paz

O Movimento Olímpico vai muito além das medalhas. O ideal olímpico nasceu para servir a paz, o entendimento e o desenvolvimento humano. O próprio Comité Olímpico Internacional define o objetivo do Movimento Olímpico como o de contribuir para construir um mundo mais pacífico e melhor, educando os jovens através do desporto, sem discriminação, e promovendo o respeito e a amizade. Os valores olímpicos são, neste século, mais atuais do que nunca: excelência, respeito e amizade são referências éticas num tempo marcado por fragmentação, pressão e ruído.

Defender a paz através do desporto não é uma abstração. É criar espaços onde jovens aprendem regras, aceitam a diferença, superam adversidades e constroem sentido de pertença. A educação olímpica tem aqui um papel decisivo, porque a aprendizagem faz-se através do desenvolvimento equilibrado do corpo e da mente. É por isso que acreditamos tanto – e temos trabalhado ativamente – na relação entre o COP, as universidades, as escolas e as federações. Sem Educação, não há cultura desportiva sólida; sem cultura desportiva sólida, os valores olímpicos não se renovam e consolidam as novas gerações.

Portugal tem mostrado, nos últimos anos, que sabe competir e crescer. O que precisamos, nesta fase, é de dar consistência a esse crescimento, para que não dependa apenas de gerações excecionais, mas de um sistema sólido e de confiança. É esse o propósito que nos move, o de consolidar um Movimento Olímpico mais forte, mais preparado e mais próximo das pessoas. Um movimento capaz de brilhar ao mais alto nível, que saiba organizar os seus grandes momentos internacionais, mas que nunca perca de vista a base de tudo, as escolas, os clubes, os treinadores e os jovens que dão os primeiros passos na atividade desportiva.

O nosso compromisso é trabalhar para transformar o potencial em desempenho, a preparação em resultado e a ambição em legado. Queremos chegar a Taranto, a Portimão e Lagoa, e depois a Los Angeles, com a confiança de quem sabe que está a construir mais do que a Equipa Portugal: está a construir futuro.

O Olimpismo continua a ser uma das maiores linguagens universais da Humanidade. Cabe-nos preservá-lo, atualizá-lo e colocá-lo ao serviço de Portugal com inteligência, coragem e responsabilidade.

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