Segundo um estudo recentemente elaborado pelo Sindicato de Jogadores, dos 283 jogadores utilizados na 1.ª volta da I Liga, cerca de 83 são portugueses (29%).Se filtramos esta informação e analisarmos apenas os dados referentes aos atletas sub-23, a realidade é ainda mais alarmante. Do total de 117 jogadores, somente 31 são nacionais (26%). Ou seja, por incrível que pareça, por cada quatro jovens jogadores, que são aposta no nosso campeonato, apenas 1 é português.Em primeiro lugar, creio que é importante o reconhecimento de que esta situação representa um problema. Não se trata de estar contra os jogadores estrangeiros. O essencial aqui é reconhecer o jogador português como parte crucial da identidade e do desenvolvimento do Futebol Português. Descartá-lo é negar as raízes do nosso futebol. Até mesmo numa perspetiva de sustentabilidade e competitividade das nossas Seleções, incluindo a principal, esta conjuntura merece atenção.Reconhecido o problema, o passo seguinte é encontrar possíveis causas para que esta situação se tenha tornado uma realidade.É, de facto, estranho termos percentagens tão baixas de jogadores nacionais no principal escalão do Futebol Português, tendo em conta que o nosso país é mundialmente reconhecido como um excelente formador de jogadores. No debate sobre este tema, sobretudo nas redes sociais, é frequente o primeiro impulso ser responsabilizar os clubes e os seus investidores.Até certo ponto, essas críticas têm sentido. O Futebol Português está a viver uma fase de mutação, proporcionada pela entrada de investidores no seu setor médio. É cada vez mais comum os clubes dos nossos campeonatos profissionais (I e II Liga) terem as suas SAD na posse de grupos ou fundos.Como é evidente, cada investidor tem um projeto. Muitos desses projetos podem não passar pela aposta na formação e no jogador português. Ainda para mais, com o crescente fenómeno dos multiclubes, há certos investidores cujo foco poderá estar na valorização de um determinado perfil de jogador, que sirva para alimentar outras equipas do grupo.Além disso, por muitas voltas que possamos dar, esses investidores têm uma prioridade: retorno financeiro. Com esse retorno financeiro em mente, muitos deles procuram soluções para o imediato.Ora, quando se fala em aposta na formação, fala-se de investimentos avultados e com um horizonte temporal de longo prazo. Entre a manutenção da identidade do clube e a concretização dos objetivos financeiros estipulados no menor espaço de tempo possível, a escolha é evidente…Independentemente destes aspetos, há todo um contexto do Futebol Português que deve ser considerado.Nesse sentido, apontar o dedo aos clubes e a quem os gere parece-me uma avaliação demasiado superficial. É como culpar os ramos e as folhas por uma árvore não dar frutos, ignorando a raiz. Os clubes são apenas a ponta de um iceberg, que representa um problema muito maior.⠀Eu acredito que a falta de aposta no jogador português e na formação é consequência de um problema estrutural do Futebol Português. Desde o fosso em relação ao número de adeptos, passando pelo diferencial na capacidade de gerar receitas, até, precisamente, à desproporção na formação… O facto de existir uma desigualdade competitiva enorme entre três clubes (Benfica, FC Porto e Sporting) e os restantes tem um impacto negativo em inúmeras vertentes do nosso futebol.Este tema das baixas percentagens de jogadores portugueses na I Liga é indissociável da incapacidade que os clubes portugueses de pequena / média dimensão têm de formar e reter talento.Apesar do incrível crescimento do SC Braga, que fez um investimento assinalável na sua Cidade Desportiva, e da forte tradição do Vitória SC no lançamento e na aposta em jogadores por si formados, a verdade é que a formação em Portugal está alicerçada em três clubes. É pouco diversificada.Benfica, FC Porto e Sporting são autênticas “esponjas” de talento. São poucos os jogadores portugueses que conseguem chegar à I Liga sem terem passado formativo em, pelo menos, um destes clubes.Isto não acontece apenas porque estes têm infraestruturas incomparavelmente superiores ou recursos humanos mais qualificados. Acontece porque têm uma verdadeira “teia” montada para monopolizarem o setor da formação.Escolinhas de Norte a Sul do país, várias equipas por cada escalão de formação (dos 6 aos 23 anos) e scouts, por tudo o que é canto, a abordarem pais de crianças com 8 ou 9 anos… A estratégia dos três grandes é clara: criar uma “bolha” que fecha todo o talento entre eles.⠀Este tipo de posicionamento é, evidentemente, muito benéfico para estes três clubes, mas prejudica o Futebol Português como um todo. O espaço para os restantes poderem formar jogadores de qualidade é extremamente limitado.A formação dos clubes de pequena / média dimensão limita-se às “sobras” dos três grandes ou a raros casos (Jota Silva, por exemplo) que escaparam da “teia”.(Num aparte, para termos noção do quão “eucaliptal” é o comportamento dos grandes, não há melhor exemplo do que o Mecanismo de Solidariedade da FIFA (MSF).O MSF foi criado com o intuito de compensar os clubes que contribuíram para a formação de um jogador, entre os seus 12 e 23 anos, com até 5% de cada transferência que este protagonize ao longo da sua carreira.⠀Com os grandes a recrutarem estas crianças em idades tão jovens, os pequenos clubes formadores nem a essa compensação terão direito. É caso para dizer que nem ficam com as “migalhas”)…⠀A questão da incapacidade de formar jogadores cria, desde logo, um problema, pois obriga os clubes a irem ao mercado. Com a crescente valorização do jogador português a nível internacional, muitos deles passaram a ter a oportunidade de fazer contratos no estrangeiro bastante vantajosos do ponto de vista financeiro, mesmo que em contextos competitivos inferiores, como a Croácia, o Chipre ou a Grécia.⠀Os clubes portugueses acabam por ficar numa situação na qual, recorrentemente, é mais benéfico, tanto financeiramente como desportivamente, contratar um estrangeiro do que um português. A relação preço/qualidade é mais favorável.Como os nossos clubes não têm capacidade de formar jogadores, acaba por não haver uma compensação para esta situação. É um efeito “bola de neve”, que leva à redução do números de jogadores portugueses na nossa I Liga.⠀O grande foco da discussão deste tema tem de ser a formação. É esse o ponto de partida do problema. Se os nossos clubes de pequena / média dimensão conseguirem formar jogadores de qualidade com algum volume, a tendência natural é que tenhamos mais jogadores portugueses no nosso campeonatoNesse sentido, medidas restritivas, como a limitação do número de jogadores estrangeiros, são evitáveis. Só iriam causar ainda mais desigualdade competitiva na nossa I Liga. As mudanças têm de ser estruturais. Temos de ir à raiz do problema.É verdade que temos um longo caminho a percorrer em termos de mentalidade. Tem de ser criada uma pressão social, na qual se deixe claro que os jogadores portugueses e da formação são importantes e fazem parte da identidade das instituições.Além disso, terá sempre de haver vontade das próprias direções dos clubes em investir na formação e apostar no jogador português. Felizmente, temos clubes que têm feito progressos enormes e são exemplares nesse aspeto, como o Famalicão. Contudo, mesmo havendo essa vontade, o contexto do Futebol Português coloca-lhes um teto ao seu crescimento. Furar este teto é o caminho que temos de seguir. É crucial criar condições para que a aposta na formação e, consequentemente, no jogador português seja apelativa do ponto de vista comercial e financeiro para quem investe nos nossos clubes.Por muito boas intenções que tenham para o desenvolvimento do clube, nenhum investidor quererá investir em algo cuja expectativa de rentabilização é praticamente nula…Tendo em conta que os clubes têm recursos limitados, será que faz sentido investirem forte na formação quando, à partida, sabem que a matéria prima de qualidade (jogadores) está toda dominada pelos 3 grandes?A ausência de jogadores portugueses na I Liga é um problema que deriva da desigualdade competitiva do Futebol Português. Tal como muitos outros problemas do nosso futebol, acredito que a solução está numa descentralização.O que está em causa não é diabolizar o Benfica, FC Porto e Sporting e responsabilizá-los por todos os males do Futebol Português. Entrar num lógica que é necessário enfraquecê-los de forma desenfreada não é o caminho, até porque praticamente tudo o que é elogiável no nosso futebol deve-se aos grandes.No entanto, da mesma forma que estes 3 clubes puderam crescer como instituições e, por conseguinte, contribuir para o desenvolvimento do Futebol Português, agora, é preciso dar um próximo passo. E esse passo só será dado se os restantes clubes também puderem evoluir, algo que, no contexto atual, não é fácil. É preciso moderação e consciência que, para o Futebol Português se tornar num produto melhor, são necessárias mudanças estruturais.Enquanto tudo girar à volta de 3 clubes e os restantes não passarem de meros figurantes, podemos ser muito criativos na procura por causas, mas a origem de boa parte dos problemas do Futebol Português será sempre a mesma…