Elogio do empate

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Alguém diz, com o orgulho de quem traz uma notícia da família: “Empatámos com a Espanha.” Cinco minutos depois, outro acrescenta: “E também com o Uruguai.” E, de repente, já não estamos apenas a falar de futebol. Estamos a falar de respeito e da teimosia atlântica que faz um arquipélago acreditar que pode enfrentar qualquer mar.

Em muitos lugares, um empate sabe a sopa sem sal. Em Cabo Verde, contra seleções habituadas a sentarem-se à cabeceira da mesa, sabe a cachupa em dia de festa. A celebração de noventa minutos em que o mais cotado perdeu autoridade. E isso, convenhamos, é uma cena bonita de se ver. Sobretudo porque a hierarquia costuma entrar em campo muito convencida de si própria.

Quando Cabo Verde marcou ao Uruguai, a alegria não coube nos corpos de Kevin Pina e Hélio Varela. Pina abriu o marcador com um livre que já entrou para a história da seleção. Hélio devolveu ao jogo a justiça que Cabo Verde, pela forma como jogava, pedia há algum tempo. Depois vieram as corridas, os braços abertos, os colegas em lágrimas, todos a festejarem a entrada do país em campo.

O empate tem má reputação. É cumprir o horário, não incomodar ninguém: uma espécie de acidente burocrático do resultado. Um intervalo estatístico, um compromisso sem paixão. Os jornais falam dele com enfado; os adeptos discutem-no como quem comenta o estado do tempo. O empate, dizem-nos, não tem épica.

Mas talvez isso só seja verdade quando olhamos para o empate como quem olha para uma tabela.

As grandes seleções vivem numa cultura da conquista. Quando uma potência empata, fala-se em crise. Quando uma seleção de menor tradição empata, fala-se de surpresa, milagre ou façanha. O resultado é o mesmo, mas a leitura muda porque o futebol finge que é apenas matemática. Um 0-0 contra a Espanha vale a capacidade de impedir que a Espanha transforme o jogo numa posse de bola arrasadora. Um 2-2 contra o Uruguai vale a prova de que Cabo Verde não foi ao Mundial pedir autógrafos.

O empate talvez seja mesmo a mais democrática das pontuações por obrigar as partes a reconhecerem que nenhuma conseguiu mandar sozinha. Durante noventa minutos, encontram-se, medem forças, corrigem expectativas. No fim, ninguém apaga ninguém.

A vida, aliás, está cheia de empates. A maioria dos casamentos felizes vive de negociações sucessivas; As democracias são empates institucionalizados entre interesses que raramente coincidem. A vida em comum depende muito dessa habilidade pouco vistosa: ceder sem desaparecer, insistir sem esmagar. Se a vitória absoluta fosse a regra, viveríamos todos num ajuste de contas permanente.

Numa época obcecada por vencedores, rankings, métricas e desempenhos, um povo celebrou aquilo que os manuais da ambição classificariam como resultado intermédio. E teve razão. Há empates que obrigam os outros a olhar duas vezes; que mostram que a hierarquia pode até entrar em campo favorita, mas não entra com o resultado assinado. No fundo, o empate, vitória da proporção, é o momento em que o favorito percebe que o adversário não é tão pequeno quanto se julgava.

Contra Espanha e Uruguai, Cabo Verde festejou pontos. Festejou golos, abraços, sustos dados aos grandes e a alegria muito concreta de ser levado a sério. Festejou a igualdade. E poucas palavras são tão belas e dão tanto trabalho como essa.

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