Cala-te Pote!

Pedro Lucas

Diretor das revistas 'Men's Health' e 'Women's Health'

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O que acontece depois de um futebolista não se esconder após uma derrota?

A pergunta surgiu-me depois de Pedro Gonçalves ter publicado uma mensagem nas redes sociais a reconhecer um momento difícil do Sporting após a derrota na Taça de Portugal diante do Torreense e assumir a responsabilidade pelos resultados.

Nada de extraordinário. Apenas o reconhecimento de uma realidade que todos tinham visto. Ainda assim, a polémica surgiu e nem sequer foi ao VAR. Mas este episódio vale mais pelo que revela do que pela discussão que gerou.

É que durante anos vimos adeptos, comentadores, diretores, presidentes a criticar jogadores e treinadores por recorrerem a desculpas ou recusarem assumir responsabilidades. Sempre se pediu frontalidade e verdade. Mais capacidade para olhar para um resultado negativo e dizer simplesmente: fomos inferiores. Mas talvez tenhamos chegado a um ponto curioso. Será que estamos a exigir autenticidade, mas apenas quando ela está alinhada com aquilo que queremos ouvir?

O futebol sempre foi um território onde a derrota tem um peso próprio. Mas, atualmente, a linguagem da derrota mudou. As conferências de imprensa estão cheias de “processos”, “aprendizagens” e “indicadores positivos”. Os jogadores falam como gestores. Os treinadores comunicam como se fossem coaches da era moderna. As derrotas raramente são derrotas. São etapas. São percursos. São momentos de crescimento. E quando há alguém a pôr o dedo na ferida, abre-se todo um sem-fim de “opinadores” e donos da verdade.

Isso viu-se no caso de Pote. Quando até a admissão de uma derrota incomoda e causa tanta polémica, a consequência a partir de hoje parece-me muito previsível: os discursos de todos os intervenientes tornar-se-ão cada vez mais cautelosos e premeditados. Assumir fragilidades passou a ser um risco que ninguém vai querer enfrentar. Qualquer reconhecimento de fracasso pode ser um sinal de fraqueza. Qualquer palavra sincera pode gerar contestação. A tal frontalidade que muitos exigem está, assim, condenada. Qualquer protagonista deixará simplesmente de assumir o que quer que seja.

Talvez devêssemos recuperar a capacidade de aceitar esta simplicidade de que uns ganham e outros perdem. Aprender a lidar com o fracasso. Porque uma derrota em si já é mais do que suficiente.

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