Após 72 anos, a Suíça passou as trincheiras dos ‘oitavos’ e chegou aos quartos de final de um Mundial de futebol. Na madrugada de domingo (02h00, Sport TV1 e LiveModeTV), a multicultural seleção suíça vai enfrentar a Argentina, dona de três títulos mundiais e atual campeã. Nada que assuste Granit Xhaka, que disse ansiar por esse duelo com Lionel Messi, não fosse ele um homem habituado a lutar pela própria liberdade e pelo direito de jogar na seleção do país que o acolheu como refugiado no pós-Guerra dos Balcãs. A família refugiou-se na Suíça para fugir do conflito no Kosovo e o pai chegou a ser preso político na antiga Jugoslávia.Na Suíça, cerca de 27% da população são cidadãos estrangeiros, muitos deles refugiados acolhidos num país conhecido pela posição neutral perante conflitos armados. Mais de 80% da já aclamada “geração de ouro” do futebol suíço são filhos da imigração de 15 países diferentes. E como a linguagem do futebol é universal, nem o facto de serem falados quatro idiomas no balneário tem dificultado a missão do técnico Murat Yakin, também ele um suíço filho de turcos. “Acho que a geração que temos agora é muito especial. Esperávamos há muito tempo por uma geração como esta”, confessou há dias, de forma emocionada, o capitão Granit Xhaka, que é de origem albanesa-kosovar e nascido em Basileia em 1992, um exemplo maior da diversidade da demografia do país.A comunidade dos Balcãs, bem como a espanhola e a africana, marcam as raízes dos 26 jogadores da convocatória suíça, onde apenas quatro jogadores não possuem historial de imigração: Gregor Kobel, Miro Muheim, Cedric Itten e Fabian Rieder. O português Diogo Costa podia ser um deles. O guarda-redes do FC Porto nasceu em Rothrist, uma pequena comuna no Cantão de Argóvia, na região da Suíça que fala alemão. E não fosse a mãe ter-se separado do pai e regressado a Portugal quando ele tinha 7 anos, Diogo Costa poderia ser um desses filhos da imigração suíça.Mas foi a jogar futebol e não a responder a um quizz de geografia que a seleção helvética se apurou. Os veteranos Xhaka, Manuel Akanji, Breel Embolo e Ricardo Rodríguez ganharam a companhia de jovens como Dan Ndoye, Ardon Jashari e Johan Manzambi, nascido em Genebra há 18 anos, filho de pai congolês e mãe angolana, que muito tem orgulhado a nação helvética e é sério candidato a melhor jogador jovem do Mundial 2026. O Arrowhead Stadium, no Kansas, e o Mundo, pela televisão, assistirão, por isso, ao triunfo da imigração e da multiculturalidade do futebol, seja qual for o resultado do Argentina-Suíça e do duelo entre Lionel Messi e Granit Xhaka. isaura.almeida@dn.pt