Corre-se mais em Portugal do que há dez anos. Abrem-se campos de padel sem parar em quase todos os concelhos e os ginásios investem em tornar-se espaços wellness, onde se treina por prazer e não por obrigação. Por aqui, tudo bem. Mas, e as crianças?
A Organização Mundial da Saúde recomenda que quem tem entre 5 e 17 anos deva fazer, em média, 60 minutos de atividade física moderada a intensa por dia. São sete horas por semana. A escola é o único sítio onde todas as crianças do país estão por obrigação, e a Educação Física ocupa algumas horas por semana, diria horas insuficientes face ao que a OMS recomenda. O resto tem de acontecer fora da escola, e é aí que as diferenças e as preocupações aparecem.
Uma criança cujos pais podem pagar um clube, uma atividade extracurricular ou levá-la ao parque ao fim do dia chega perto do recomendado. As outras ficam longe. Já para não falar de que, ao não fazerem desporto, as probabilidades de ficarem por casa ligadas a telemóveis e computadores são imensas.
Vale a pena olhar para países que organizaram o desporto de outra maneira. Nos Estados Unidos, o desporto vive dentro da escola. Os clubes de bairro têm um peso pequeno comparado com o que se vê na Europa. A equipa de futebol americano, de basquetebol, de atletismo ou de natação é a da escola. Os treinos acontecem depois das aulas, os jogos têm público da comunidade e a participação faz parte da vida escolar de milhões de alunos. Depois vem a universidade, onde as bolsas de atleta permitem estudar a quem não teria como pagar. Uma criança com talento e sem dinheiro tem um caminho dentro do sistema, e é a escola que o abre.
Na África do Sul acontece algo parecido. O râguebi e o críquete começam nas escolas, em campeonatos entre colégios que são acompanhados pelos selecionadores e seguidos por famílias inteiras. Muitos dos jogadores que chegaram aos Springboks passaram primeiro por este circuito escolar. Ainda assim, há uma realidade menos positiva: as escolas com infraestruturas e treinadores concentram o talento, enquanto muitas escolas de bairros pobres não têm campo, nem equipamento. Mas, felizmente, o país percebeu a factual importância do desporto escolar e investiu no combate à essa desigualdade.
Nenhum dos dois modelos é perfeito, convém dizê-lo. Os Estados Unidos têm dos níveis de obesidade infantil mais altos do mundo desenvolvido; África do Sul mostra o que acontece quando o acesso depende do código postal. Ainda assim, ambos partem da mesma ideia: o desporto é parte do dia escolar, tem tempo, espaço, treinadores e peso na vida da comunidade. O desporto escolar ensina às crianças a perder sem desistir, a ganhar sem humilhar e a depender dos colegas para chegar a algum resultado, e são hábitos que a sala de aula sozinha raramente consegue criar.
Em Portugal, o desporto escolar e a Educação Física existem, mas pesam pouco. A disciplina conta pouco na média final e no acesso ao Ensino Superior. Turmas grandes, pavilhões em condições precárias, aulas perdidas quando chove. Quem tem filhos conhece estes problemas.
Defendo que a escola é o único sítio onde se pode trabalhar isto. O dobro de aulas de Educação Física no 1.º ciclo, mais tempo letivo nos restantes, equipas e competições escolares com treinadores a sério, e acordos entre escolas, clubes e autarquias para usar os espaços que já existem. Nada disto é novo, mas poucas vezes se vê em prática. Cá para mim, custa menos investir no desporto do que tratar mais tarde a obesidade e as doenças que ela traz.
Daqui a 20 anos, queremos que os portugueses continuem a correr, a jogar e a treinar. Mas, reforço, esse hábito cria-se aos 6 anos, não aos 35.