Todos os anos acontece o mesmo. Quando estamos a poucos meses do verão, os ginásios enchem-se, os parques ganham novos corredores e as redes sociais descobrem novamente a alimentação saudável. Dúvidas: A maior parte das pessoas não gosta do seu corpo? Vale tudo só pelo lado estético? Fazem-no (só) porque não se sentem bem na praia perante as outras pessoas?É mais ou menos em abril, maio e junho. E é também nesta altura que surgem os comentários do costume. “Agora é que se lembram”. “Daqui a três meses já desistiram”. “Os corpos são do ano inteiro, não só no verão”. Percebo inteiramente todos estes apontamentos. Mas tenho uma opinião contrária. Portugal continua a ter um problema sério com os hábitos de saúde. Dados divulgados recentemente pelo INE mostram que mais de metade da população adulta tem excesso de peso (37,3%) ou obesidade (15,9%). Em paralelo, a Direção-Geral da Saúde estima que mais de dois terços dos portugueses apresentem excesso de peso e que quase 29% sofram de obesidade. Perante estes números, não consigo olhar para alguém que decide começar a mexer-se apenas porque o verão se aproxima e pensar que isso é uma coisa negativa.É verdade que muitos começam por razões estéticas. Querem perder alguns quilos, sentir-se melhor de biquíni ou calção de banho ou ganhar confiança para os meses de calor. Não vejo problema nenhum nisso, desde que o façam de forma natural e sem atalhos. Qualquer motivo que leve uma pessoa sedentária a levantar-se do sofá, largar o telemóvel ou a Netflix, merece mais aplausos do que críticas. Porque eu continuo a acreditar que destas pessoas que começam com o objetivo de estar melhor fisicamente no verão, e vão procurar conhecimento sobre como ser mais saudável, uma boa parte delas continuarão a cuidar-se depois do verão.Eu acredito nisso! Porque vão sentir-se naturalmente mais ágeis, confiantes e com mais energia e não quererão desistir desse novo estilo de vida. Começam porque querem melhorar a aparência e ficam porque passaram a dormir melhor. Porque sobem escadas sem se cansarem. Porque as análises melhoraram. Porque recuperaram autoestima. Porque nas fotografias de verão até parecem mais novos/as. Porque percebem que são capazes de fazer mais do que imaginavam.Nem todos continuarão em setembro, é certo. Nem todos chegarão ao próximo verão. Mas basta que uma parte deles/as mantenha os hábitos. Aliás, a conversa nunca deveria ser sobre corpos de verão. Deveria ser sobre hábitos de verão que continuam no outono, no inverno e na primavera. No tal corpo de todo o ano. E aqui convém desfazer outro equívoco ou argumento que muitos arranjam para não se cuidar: ter uma alimentação saudável e praticar exercício não significa viver numa “prisão” ou obsessão. Não significa contar calorias a todas as refeições, recusar um jantar entre amigos ou sentir culpa por beber um copo de vinho – então se eles sabem melhor no verão! Quem desenvolve hábitos consistentes aprende precisamente o contrário. Aprende a conhecer o próprio corpo. Aprende o que lhe faz bem. Aprende onde está o equilíbrio. E percebe que uma refeição mais indulgente ou um fim de semana menos disciplinado não apagam meses de boas escolhas.A obsessão raramente é saudável. O equilíbrio é. Por isso, quando vir alguém começar a correr em maio, a entrar num ginásio em junho ou trocar algumas más escolhas alimentares por outras melhores, talvez valha a pena evitar o comentário fácil. Pode ser apenas mais uma tentativa falhada, mas também pode ser o início de uma mudança que dure anos. E entre quem começa tarde e quem nunca começa, a mim parece-me simples saber o lado que devemos apoiar.