Nesta 3.ª e última parte, é exposto quem, na sua visão, mais se destacou entre os primeiros 6 classificados do nosso campeonato!⠀⠀Victor Froholdt (FC Porto)O sucesso do FC Porto de Farioli explica-se, acima de tudo, pelo coletivo e pela assimilação de um modelo de jogo.⠀⠀Nesse sentido, pode até ser considerado injusto individualizar.⠀⠀Contudo, creio que faz todo o sentido destacar aquele que é o jogador que melhor representa boa parte das bases da ideia de jogo de Francesco Farioli: Victor Froholdt.⠀⠀É certo que, após um início fenomenal de temporada, Froholdt, por estar obrigado a jogar praticamente todos os jogos, foi perdendo algum fulgor. ⠀⠀Com a chegada de Seko Fofana à Invicta, no mercado de inverno — o que permitiu a Farioli descansar o dinamarquês sem colocar em causa a competitividade da equipa —, gradualmente voltámos a ver a melhor versão de Froholdt.⠀⠀Com apenas 20 anos, é impressionante o nível do médio dinamarquês. É a definição de box-to-box.⠀⠀Froholdt encaixa na perfeição em tudo o que Francesco Farioli pretende dos seus médios interiores:⠀⠀Um jogador mais físico do que técnico (o que não quer dizer que seja um “tosco” tecnicamente, longe disso);⠀⠀Um “animal competitivo”, que eleva os níveis de intensidade e agressividade sem bola de toda a equipa (duelos, pressão, transição defensiva, etc.);⠀⠀Um médio com um enorme raio de ação e muita disponibilidade física (jogo após jogo, tem “pilhas” ao longo dos 90 minutos);⠀⠀Um “cavalo” capaz de queimar metros em condução e criar desequilíbrios com movimentos de ruptura;⠀⠀Um verdadeiro exemplo de compromisso — algo que é extensível a todo o coletivo do FC Porto de Farioli.⠀⠀Victor Froholdt acaba por ser um justíssimo MVP desta edição da I Liga.⠀⠀É caso para dizer que os 20 milhões de euros pagos pelo FC Porto ao Copenhaga, no verão passado, saíram muito “baratos”!⠀⠀Luís Suárez (Sporting)Independentemente do falhanço na hora das decisões (final de época desastroso), é justo reconhecer que a equipa do Sporting apresentou um nível exibicional elevado ao longo da temporada. ⠀⠀Houve uma clara evolução em comparação com a segunda metade da época passada.⠀⠀Rui Borges teve relativo sucesso na transição para as suas verdadeiras ideias de jogo.⠀⠀Uma das decisões que acabou por ser decisiva para que essa qualidade de jogo se concretizasse foi a contratação de Luís Suárez.⠀⠀A ausência de títulos coletivos acaba por retirar algum brilho, mas não há dúvidas de que a primeira época do colombiano em Alvalade foi muito positiva. Apesar de ter características muito diferentes das de Gyökeres, Suárez não tremeu com o peso de substituir o sueco.⠀⠀É evidente que o colombiano não tem a autossuficiência de Gyökeres. O sueco é um jogador que, mesmo quando o coletivo não rende, continua a ter grande impacto. Com Gyökeres, “bastava” solicitá-lo no ataque à profundidade e ele resolvia. É um ponta de lança fortíssimo fisicamente, letal em transição e com enorme capacidade para segurar a bola e libertar a equipa da pressão.⠀⠀Luís Suárez não tem esse perfil. Depende mais do coletivo e tem características para um futebol mais apoiado e pensado. É um avançado mais associativo, técnico e com maior facilidade em jogar entre linhas e em espaços curtos.⠀⠀Num cômputo geral, e considerando o contexto que o Sporting mais encontra em Portugal (blocos baixos e pouco espaço para jogar), pode-se até dizer que o Sporting ganhou em alguns aspetos com a troca de Gyökeres por Suárez.⠀⠀Mesmo em termos de números, Suárez esteve à altura do desafio: terminou a época de estreia com 38 golos e 7 assistências em 53 jogos — um registo de grande respeito.⠀⠀Andreas Schjelderup (Benfica)Esta época não vai deixar saudades aos benfiquistas.⠀⠀É certo que a responsabilidade está longe de ser exclusiva do treinador (grande parte dos problemas vem de cima), mas a verdade é que José Mourinho não conseguiu inverter o rumo negativo que o Benfica tem seguido nas últimas temporadas.⠀⠀Independentemente disso, há um mérito que deve ser atribuído a Mourinho: a evolução de Andreas Schjelderup.⠀⠀É evidente que Schjelderup ainda não é um jogador feito. Com apenas 22 anos, a irregularidade exibicional é natural para a idade. No entanto, o norueguês tem o perfil de extremo que melhor encaixa no contexto competitivo que o Benfica encontra em Portugal.⠀⠀Na I Liga, face à desigualdade competitiva, o Benfica é obrigado a assumir a iniciativa em praticamente todos os jogos. Tem de enfrentar blocos baixos, num cenário onde há pouco espaço. ⠀⠀Schjelderup pode não ser muito rápido nem forte em campo aberto, mas possui uma excelente capacidade associativa. É um jogador capaz de criar desequilíbrios em espaços curtos. Foi feito para um futebol mais pensado, pausado e de posse.⠀⠀Tem critério e qualidade técnica que fazem a diferença nos típicos jogos da I Liga, nos quais o Benfica tem, inevitavelmente, muito mais bola do que o adversário.⠀⠀Mourinho apostou em Schjelderup, deu-lhe a confiança e a regularidade de que ele precisava, e o norueguês agarrou a oportunidade. ⠀⠀Para além das qualidades que já lhe eram conhecidas, cresceu bastante no jogo sem bola. ⠀⠀No final de contas, Schjelderup tornou-se numa das grandes figuras do plantel benfiquista.⠀⠀O ‘Special One’ não deixa um grande legado na Luz, mas este mérito ninguém lhe tira.⠀⠀Lukas Horníček (SC Braga) Apesar do início de temporada complicado, o SC Braga de Vicens foi uma das equipas portuguesas mais interessantes de ver jogar ao longo desta época. ⠀⠀Pressão alta, “vício” por posses prolongadas e muitas sobrecargas na zona da bola para criar vantagens… Estamos a falar de um coletivo com princípios claros e identidade de equipa grande.⠀⠀Quando o coletivo começou a carburar, as individualidades começaram a brilhar por consequência.⠀⠀Rodrigo Zalazar, Ricardo Horta e Pau Víctor formaram uma tripla de ataque complementar e de grande impacto. ⠀⠀Lagerbielke demonstrou ser um central de nível elevado, como há muito não se via em Braga. ⠀⠀Víctor Gomez (a sua melhor temporada desde que chegou ao Minho), João Moutinho (uma lenda), Grillitsch e muitos outros também se destacaram.⠀No entanto, é impossível ignorar Lukas Horníček. ⠀⠀Na sua posição, está noutro patamar. Só o facto de Diogo Costa ainda jogar em Portugal justifica que o checo não tenha sido considerado o melhor guarda-redes da I Liga.⠀⠀Com apenas 23 anos, Horníček é um guarda-redes bastante completo. ⠀⠀Aos atributos incríveis entre os postes, junta ainda muita qualidade no jogo de pés e no controlo da profundidade.⠀⠀Foi sempre um elemento essencial na 1.ª fase de construção do SC Braga de Vicens. Sente-se confortável ao participar ativamente na saída de bola, mostrando bons recursos no passe para furar a 1.ª linha de pressão adversária.⠀⠀Poucas dúvidas de que Horníček é um guarda-redes destinado ao topo.⠀⠀Mathias de Amorim (Famalicão)O Famalicão foi o principal “lesado” da histórica conquista da Taça de Portugal pelo Torreense. Os famalicenses mereciam o acesso à Europa depois da excelente temporada que realizaram.⠀⠀Entre vários possíveis destaques individuais neste belo plantel do Famalicão, Mathias de Amorim foi talvez aquele que mais se destacou.⠀⠀Apesar de já ter mostrado qualidade na temporada 2024/25, esta época foi de um rendimento muito alto. O médio internacional sub-21 português superou largamente as expectativas.⠀⠀Mathias de Amorim mostrou-se como um médio super completo. Um pouco à imagem do Famalicão de Hugo Oliveira, provou ser muito competente em todos os momentos do jogo.⠀⠀Sem bola, revela um compromisso, uma disciplina tática e um espírito combativo inegáveis. Não vira a cara a nenhum duelo. É muito solidário com a restante equipa, sobretudo quando esta recua para um bloco médio ou baixo.⠀⠀Com bola, tem o perfil de médio de equipa que gosta de ser protagonista. Muito evoluído tecnicamente e ágil, consegue jogar com qualidade em espaços reduzidos e libertar-se da pressão adversária com facilidade.⠀⠀Tem capacidade para iniciar ataques desde zonas baixas, assumindo a construção com critério.⠀⠀Funciona como uma “cola” entre os setores da equipa, demonstrando muita qualidade na ligação ao ataque.⠀⠀O Famalicão é um clube habituado a recrutar, potenciar e vender por valores interessantes. Mathias de Amorim será, certamente, mais um caso de sucesso do projeto famalicense.⠀⠀Luís Esteves (Gil Vicente)A reta final de temporada foi infeliz e acabou por impedir o Gil Vicente de alcançar o 5.º lugar. Contudo, os gilistas fizeram uma época muito positiva.⠀⠀César Peixoto construiu um coletivo completo, com uma identidade vincada. O Gil Vicente foi uma das melhores equipas da I Liga. Juntou organização a personalidade. ⠀⠀Demonstrou sabedoria com bola (competência em ataque posicional pouco comum em equipas portuguesas de pequena/média dimensão).⠀⠀Em processo defensivo, estabeleceu-se num bloco médio muito compacto e difícil de penetrar. Na pressão, condicionava a saída de bola adversária com uma ousada primeira linha de 4 jogadores (numa estrutura de pressão em 4-2-4). Foi uma equipa com grande capacidade para fechar o corredor central e obrigar o adversário a circular por fora.⠀⠀Independentemente da qualidade da ideia de jogo, sem boas individualidades não se constroem grandes coletivos. Nesse sentido, é obrigatório falar de Luís Esteves.⠀⠀O médio fez uma época fantástica e formou com Santi García uma dupla de médios interiores de excelente nível.⠀⠀Numa função algo diferente daquela que desempenhava no Nacional com Tiago Margarido (onde jogava mais baixo, dando critério na construção), Luís Esteves tornou-se o maestro do Gil Vicente. ⠀⠀Com César Peixoto, em Barcelos, apareceu mais adiantado, em zonas de criação, oscilando entre a meia-direita e a meia-esquerda. Foi raro o ataque do Gil Vicente que não passasse pelos seus pés.⠀⠀Provou ser um médio muito capaz em posse, com excelente leitura de jogo e capacidade para gerir os ritmos da equipa. ⠀⠀O facto de jogar mais perto da área adversária refletiu-se nos números: 4 golos e 7 assistências na I Liga. Fez a sua melhor época da carreira a nível ofensivo, mostrando uma veia criativa muito interessante, sobretudo no último passe.⠀⠀Só a idade (28 anos) poderá dificultar o salto de Luís Esteves para um patamar superior. É um médio de equipa grande.