Texto: Cristina Fontenele*Era uma quarta à tarde quando pedi um carro por aplicativo para ir a um compromisso. Escolhi novamente a opção “mulheres motoristas”, já usei o serviço algumas vezes e traz sempre aquela tranquilidade de só ocuparmos a cabeça com as próprias demandas. Abri a porta do veículo e uma jovem confirmou meu nome. Entrei sem muita disposição para conversar, mas a pontinha de curiosidade foi mais forte e perguntei: “Você é de que lugar do Brasil?”.Quantas vezes já lancei tal pergunta e ouvi histórias surpreendentes. Relatos sobre decisões planejadas, outras que seguiram o puro instinto, muitas embaladas por variadas doses de coragem. Nos carros de aplicativo já conheci diversos brasileiros. Gente que veio juntar dinheiro porque não conseguiu ir para os Estados Unidos, profissionais com doutorado e que estavam reformulando a forma de viver, teve quem nunca imaginou trabalhar dirigindo, pessoas que já tinham se aposentado, mas queriam continuar ativas de alguma forma.Naquela tarde, me deparei com a trajetória de uma carioca, formada em Administração de Empresas, estudante de Engenharia e jogadora de futebol. Um combinado interessante do sujeito que experimenta o cardápio da vida com intensidade. Ela me contou que herdou do pai a paixão e o talento pelo esporte, embora ele não tenha seguido carreira. A avó paterna dizia que futebol era coisa de vagabundo. “A mãe do meu pai cortou as pernas dele”, destacou a motorista numa forma simbólica de expressar que ela conseguiu ir mais longe, bem mais longe.A jovem, hoje com trinta e poucos anos, jogava no Brasil quando foi transferida para um grupo em Portugal, onde permaneceu por três anos. Depois, seguiu em uma equipe na Áustria por um ano. Quando retornou ao gramado português, atuou primeiro nos arredores de Braga, encantando-se com o norte do país. “Em termos de natureza, é um lugar incrível.”, relembra. Desde 2025, tem jogado em um time da Margem Sul, ocupando as horas em que não está em campo com o transporte de passageiros. E, ao conhecer mais Lisboa, vai anotando no caderno os lugares que descobre para revisitá-los.Os sonhos ainda são muitos, uma casa própria talvez, confessa. Ela não duvida das escolhas. “Não me arrependo de nada. A gente está dentro de uma caixa e, quando abre, são muitas as possibilidades.”. Durante os anos de vida no exterior, explica que já pôde conhecer mais de dez países, culturas diferentes e proporcionar a primeira viagem internacional da mãe. Enquanto a jovem falava, imaginei uma nuvem ao redor daquela cabeça, com planos, desejos e estratégias sendo desenhadas como as imagens feitas por um treinador, simulando jogadas em equipe e lances individuais. Tanta energia serviu para me injetar entusiasmo nesse início de ano. Ando letárgica com o frio que atravessa paredes, cobertas e humores.Finalizei a conversa comentando que sou do Ceará, ao que ela respondeu que a mãe também nasceu no mesmo estado e foi criança morar no Rio de Janeiro, mas que parte da família ainda vive em Fortaleza. A coincidência me lembrou os muitos cearenses, de coração e de raiz, que tenho encontrado em Portugal. Outro dia, ao comprar cookies em um quiosque do shopping, conheci uma guineense de largo sorriso dizendo que o lugar dela é, na verdade, Fortaleza. Passeamos pelas memórias de ambas, revisitando expressões, costumes e nossos lugares de afeto. Surgiu ali uma cumplicidade. Agora, sempre que volto ao local, espero rever minha simpática “conterrânea” antes de adoçar o dia.Como disse a futebolista, quando a gente abre nossa caixa, podem surgir várias possibilidades. Inclusive a oportunidade de se inspirar na alegria que vem do outro. *Cristina Fontenele é escritora brasileira, com especialização em Escrita e Criação. Autora de "Um Lugar para Si - reflexões sobre lugar, memória e pertencimento”, além de jornalista e publicitária. Escreve crônicas há quinze anos e, como típica cearense, ama uma rede e cuscuz com café bem quentinho..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Crônica. Um sopro de bem-querer.Crônica. Afeto, livros e sorrisos