Novas de mais para não engravidar

Como lidar com a pressão decorrente da expetativa de que uma mulher jovem não terá qualquer problema em engravidar? Que mitos encerra esta ideia? Existe alguma forma de prevenção? E porque continuamos a ter vergonha de falar em infertilidade - aos 35, aos 30 ou aos 25? Histórias de mulheres que quiseram ser mães antes dos 30 anos e que nunca imaginaram ter problemas em engravidar na chamada «idade ótima» para conceber um filho. Mas a realidade revelou-se diferente.

Ângela Antunes tinha 21 anos quando decidiu que estava na altura de ser mãe. Nasceu quando a mãe tinha apenas 18 anos e Ângela queria seguir-lhe o exemplo. Imaginou-se com um filho aos 19, aos 20, uma idade que, para a maior parte das mulheres portuguesas, europeias, ocidentais, é quase sinónimo de gravidez precoce e indesejada. Se os 20 anos correspondem a uma das melhores alturas para engravidar, em 2016 correspondem também à saída da adolescência, ao início da formação profissional e pessoal antes da estabilização profissional. Mas para esta esteticista de Alcaria, Fundão, estava na hora. Ângela casou-se em 2007, meses antes de completar 22 anos e não esperou mais. Seria uma questão de semanas ou meses, certamente. Dois anos depois, sem bebé e sem engravidar, não lhe passou pela cabeça que pudesse haver um problema. Na sequência de uma menstruação irregular, uma ginecologista usou pela primeira vez aquele termo. «Se já está há tanto tempo sem engravidar porque não vai a uma consulta de infertilidade?» Ângela tinha 23 anos e o sonho de ser mãe jovem e viu-se confrontada com uma palavra que sempre associou a algo que só acontece aos outros, mas que agora ameaçava travar-lhe o projeto de vida. «Ainda não me tinha caído a ficha da infertilidade», diz, agora com 30 anos. «Uma pessoa, sendo tão nova, não pensa nisso.»

Seguiu-se uma primeira consulta de fertilidade no Hospital da Covilhã, uma bateria de exames nos quais não foi detetada qualquer causa para a infertilidade - quer em Ângela quer no marido, David. Meses depois, em abril de 2010, o primeiro tratamento - uma inseminação intrauterina que falhou. Nova consulta e marcação de novo tratamento, agendado para junho. No final de julho, Ângela soube que o tratamento resultara e que estava grávida. A 30 de março de 2011, após muitas ameaças de aborto, um descolamento da placenta e uma gravidez passada na cama, Alicia nascia de cesariana. Aos 25 anos e depois de quatro anos de tentativas e tratamentos, Ângela pediu ao marido que a beliscasse. «Para eu ver se não estou a sonhar», diz agora, olhando para a pequena Alicia, uma criança de olhos claros e feitio difícil. «Ela é um bocado tortinha», diz Ângela a rir e com orgulho, como se a teimosia da filha se tivesse gerado como reação à dificuldade da mãe em engravidar. Ângela e David não voltaram a utilizar qualquer método contracetivo, esperançosos de darem um irmão a Alicia. Ainda assim, esperaram um ano antes de marcarem nova consulta de fertilidade. Em outubro de 2015, a terceira inseminação intrauterina foi cancelada porque a medicação utilizada para a estimulação ovárica não produziu os resultados desejáveis e os folículos de Ângela não se desenvolveram o suficiente. «Arrependo-me de ter esperado tanto tempo. Nunca imaginei que isto voltasse a acontecer.» Ângela tem 30 anos. O médico já a avisou de que agora a idade começa a pesar.

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