A cidade do Fundão, no interior de Portugal, é conhecida internacionalmente pelas boas práticas de integração de imigrantes. Mais de 70 nacionalidades diferentes vivem no município de 27 mil habitantes, localizado no sopé da Serra da Gardunha, cercado por uma paisagem de vales e montanhas. Como na maior parte das cidades portuguesas, há um número expressivo de brasileiros que trabalham nas mais diversas áreas.Desde 2022, a comunidade brasileira na cidade está organizada por meio da Associação de Apoio Brazuca e Amigos (AABA). A criação da entidade foi incentivada pelas autoridades municipais da época, que mantinham um programa estruturado de integração de imigrantes. “Em 2022, a Câmara do Fundão iniciou um projeto de mediadores culturais com representantes das principais comunidades. Sempre que pensávamos em algum evento ou ação, a Câmara reforçava essa ideia de fundar uma associação, porque é muito mais fácil dar apoio a uma associação do que a um particular. Inclusive, chegaram a fazer um workshop sobre como criar uma associação. Com essa ‘forcinha’ da Câmara e a vontade que já existia na comunidade, eu, meu marido, Carlos Bastos Filho, e minha amiga Juliana de Paula - que, na época, era advogada e mediadora cultural da comunidade brasileira - acabamos por seguir em frente”, conta ao DN Brasil Naryon Coelho, de 46 anos.A gaúcha vive na cidade desde 2021. A família escolheu Portugal após uma passagem por Taiwan, onde o marido trabalhou por um tempo. Segundo a Naryon Coelho, a associação é aberta a todos os imigrantes e também aos portugueses. “Nosso objetivo é facilitar a integração. Trabalhamos mais com brasileiros porque essa é a nossa realidade, mas também tentamos ajudar outros imigrantes e até portugueses, para melhorar a interação entre todos”, destaca. Com os estrangeiros que chegam, o trabalho é de orientação: “Muita gente chega sem saber por onde começar, como documentação, escola dos filhos, saúde, trabalho, e nós orientamos dentro daquilo que já vivemos e fomos aprendendo na prática”.Outro foco está na integração, por meio de atividades culturais que envolvem várias nacionalidades. “Já realizamos várias noites de karaokê, que costumam reunir pelo menos 25 pessoas de diferentes nacionalidades - brasileiros, ingleses, franceses, portugueses e PALOPs. Nosso arraial está na quinta edição; na última, estimamos que cerca de 800 pessoas passaram pelo evento ao longo da programação. Além disso, vamos realizando outras ações ao longo do ano, sempre com a ideia de aproximar moradores locais e imigrantes e fazer com que todos se sintam parte”, complementa. Por ser uma cidade do interior, existem algumas particularidades. “O Fundão é acolhedor, mas não deixa de ser outro país, outra forma de funcionar. Tem um tempo até a pessoa se ajustar.Sentimos que ainda falta mais ligação entre as pessoas. Nem sempre há muita interação entre locais e imigrantes, e às vezes nem entre os próprios imigrantes. Não é falta de oportunidade, é mais falta de orientação e de entender como as coisas realmente funcionam aqui”, detalha. No geral, a comunidade brasileira é semelhante à de outras cidades, trabalhando em áreas que vão da limpeza e restauração às tecnologias da informação. Um problema, que é transversal, está na “falta de informações”. “Um dos principais desafios é a falta de informação clara. Muita gente chega com uma ideia na cabeça e, quando chega aqui, vê que não é bem assim”. A brasileira também faz o esforço para combater a desinformação online. “Muita gente ainda toma decisão com base no que vê ou ouve na internet, e isso complica muito a vida. Tem que ter um certo filtro e fazer muita pesquisa. Nem tudo é confiável. Tem muita coisa feita só pra chamar atenção, ganhar likes. Tem que buscar fontes mais seguras e ver o conteúdo completo”, explica.Sobre o cenário da cidade, Naryon é otimista. “Quando tem alguma coisa que junta todo mundo - como o nosso arraiá, o mercado de natal, a festa da cereja, uma causa social -, aí essa mistura acontece muito mais. É nesses momentos que a gente vê que dá certo. Quando as pessoas se conhecem e convivem, essa distância diminui bastante”.amanda.lima@dn.pt.Este texto está publicado na edição impressa do DN desta segunda-feira, 23 de março de 2026..O DN Brasil é uma seção do Diário de Notícias dedicada à comunidade brasileira que vive ou pretende viver em Portugal. Os textos são escritos em português do Brasil..Cônsul-geral do Brasil em Lisboa. “A escola é um lugar que precisa receber atenção no combate ao racismo e à xenofobia”.Qualificados, mas barrados: estudo revela obstáculos estruturais ao emprego de imigrantes em Portugal