Violentas explosões abalam Beirute. 100 mortos, 4 mil feridos e "muitos desaparecidos"

Duas explosões na capital do Líbano sentidas em várias zonas da cidade. Cruz Vermelha do Líbano fala em pelo menos 100 mortos e 4000 feridos. Explosões surgem a dias de ser conhecida, na sexta-feira, a sentença no julgamento dos suspeitos do assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, em 2005.

Duas fortes explosões abalaram terça-feira a zona do porto da capital do Líbano, Beirute, causando pelo menos 100 mortos e quatro mil feridos, segundo os últimos números revelados pela Cruz Vermelha libanesa na manhã desta quarta-feira.

"Há muitos desaparecidos. As pessoas estão a pedir urgentemente para que sejam encontrados os seus ente queridos e vai ser difícil procurá-los à noite porque não há eletricidade", disse Hamad Hasan à Reuters. "Estamos a enfrentar uma catástrofe real e precisamos de tempo para quantificar os danos causados", acrescentou.

"É um desastre em todos os sentidos da palavra", lamentou Hasan, enquanto visitava um hospital da capital libanesa para onde estão a ser transportadas algumas das vítimas.

O Conselho Superior de Defesa do Líbano recomendou a declaração de estado de calamidade para a cidade de Beirute.

A agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP) indicou que uma forte explosão ocorrida em Beirute feriu várias pessoas e causou danos generalizados.

A SIC diz que uma portuguesa sofreu ferimentos ligeiros provocados por estilhaços de vidros na explosão e precisou de assistência hospitalar, mas já está em casa.

O Governo português não tem indicações de que haja cidadãos nacionais entre as vítimas mortais das explosões, disse à Lusa a secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, Berta Nunes.

"Até ao momento, não temos nenhuma informação sobre qualquer português que tenha falecido ou que esteja gravemente ferido", disse Berta Nunes numa chamada telefónica com a Lusa, acrescentando: "Também não temos reporte de feridos ligeiros, apenas de danos materiais".

O grupo Hezbollah e Israel já vieram negar qualquer envolvimento nas explosões. Israel inclusivamente acrescentou-se à lista de países que ofereceram ajuda humanitária ao Líbano, com quem não tem relações diplomáticas.

Segundo a AP, as explosões ocorridas esta tarde partiram janelas a quilómetros de distância. Algumas emissoras de televisão locais indicaram que as explosões ocorreram no porto de Beirute, numa área onde estava armazenado fogo-de-artifício.

Cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio estavam armazenadas no depósito do porto de Beirute que explodiu, revelou o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab.

"É inadmissível que um carregamento de nitrato de amónio, estimado em 2.750 toneladas, estivesse há seis anos num armazém, sem medidas de precaução. É inaceitável e não podemos calar-nos sobre esta questão", disse o primeiro-ministro durante a reunião do Conselho Superior de Defesa, segundo relato de um porta-voz em conferência de imprensa.

O nitrato de amónio é um fertilizante químico e também é um componente de explosivos.

São visíveis nuvens de fumo laranja sobre a cidade e os media locais já transmitiram imagens de pessoas presas em escombros, algumas cobertas de sangue, segundo a AFP.

Um repórter fotográfico da AP viu pessoas feridas no chão perto do porto de Beirute e destruição generalizadas no centro da cidade.

A zona do porto foi fechada pelas forças de segurança, que apenas deixam passar a defesa civil, ambulâncias e viaturas dos bombeiros. Nas proximidades do porto, os sinais de destruição são muito visíveis e há relatos de testemunhas que ouviram as explosões a vários quilómetros de distância.

As circunstâncias e pormenores da explosão continuam a ser desconhecidos, indicou a AFP, cujos correspondentes viram habitantes feridos a deslocarem-se para hospitais, assim como viaturas abandonadas nas ruas, com os airbags inflados.

"O que aconteceu hoje não ficará impune. Os responsáveis por esse desastre terão de pagar pelo que fizeram", disse o primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, numa comunicação ao país pelas televisões.

Diab já prometeu mais esclarecimentos sobre "esse armazém perigoso que existe há seis anos" e pediu ajuda aos "países amigos e irmãos", para curar as "feridas profundas" do país.

O Presidente libanês, Michel Aoun, convocou uma "reunião urgente" do Conselho Supremo de Defesa e Hassan Diab declarou um dia de luto nacional, na quarta-feira, "pelas vítimas da explosão".

"Senti-me como se estivesse perante um terramoto e depois ouvi uma explosão, seguida de outra, que abriram as janelas. Foi mais forte do que a explosão que matou Rafik Hariri", disse uma habitante da cidade, referindo-se ao atentado à bomba, em 2015, que vitimou um conhecido homem de negócios libanês.

"Os prédios tremeram", disse um morador, na sua conta pessoal da rede social Twitter, relatando que as janelas do seu apartamento tinham quebrado com o impacto das explosões.

Vários capacetes azuis da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FINUL) ficaram gravemente feridos. As explosões deixaram alguns elementos da força de missão da ONU gravemente feridos e o navio em que se encontravam, atracado no porto da capital libanesa, danificado, adiantou a FINUL, em comunicado.

Em vésperas de um dia importante

As explosões surgem dias antes de ser conhecida a sentença dos suspeitos do assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri. Hariri foi morto a 14 de fevereiro de 2005.

Um tribunal apoiado pela ONU divulga nesta sexta-feira a sua sentença no julgamento contra quatro homens acusados de terem participado no assassinato de Hariri em 2005, uma etapa fundamental num longo e caro processo no qual os suspeitos continuam em liberdade.

Os réus, todos membros do movimento xiita Hezbollah, estão a ser julgados à revelia pelo Tribunal Especial do Líbano (TSL), com sede em Haia, encarregado de ditar a sentença 15 anos após o atentado com um carro-bomba, no centro de Beirute. Nele, morreram o milionário sunita e outras 21 pessoas.

O grande atentado contra Hariri é para muitos libaneses o equivalente ao assassinato do presidente John F. Kennedy para os americanos: todos ainda se lembram o que estavam a fazer naquele fatídico dia 14 de fevereiro.

O milionário sunita, que encarnava a era da reconstrução após a guerra civil (1975-1990), morreu na explosão de uma carrinha-bomba à passagem da sua comitiva blindada.

A explosão provocou uma bola de fogo no centro de Beirute. As chamas atingiram vários metros de altura e as janelas de prédios em volta estilhaçaram-se num raio de meio quilómetro.

O homem-bomba ao volante da carrinha branca carregada com duas toneladas de explosivos estacionou estrategicamente para esperar a comitiva, que tinha acabado de sair do Parlamento e seguia para a residência de Hariri.

Às 12h55, o detonador foi ativado, um segundo após a passagem do terceiro veículo, um Mercedes S600 conduzido pelo próprio Rafic Hariri.

Muitas pessoas pensaram ser um terramoto. Beirute inteira ouviu ou sentiu a explosão, que deixou uma cratera de 10 metros de diâmetro e dois metros de profundidade.

As notícias não demoraram a chegar. O ex-primeiro ministro, que se juntou à oposição em 2004, estava entre os 22 mortos. Os guarda-costas também morreram. O estrago foi de tal magnitude que levou 17 dias para que o corpo de uma das vítimas fosse encontrado. 226 pessoas ficaram feridas.

Apesar de não estar no cargo, o homem de 60 anos, de bigode e cabelos grisalhos, desempenhava um papel político de relevo no país. Contava com o apoio da Arábia Saudita e a expectativa era que recuperasse o cargo de primeiro-ministro.

O assassinato de Hariri acelerou a história. Provocou uma onda de ódio sem precedentes no Líbano, desencadeando protestos gigantescos que forçaram a Síria a retirar as suas tropas do país alguns meses depois.

Com a saída, o Hezbollah, principal suspeito do assassinato de Hariri, mas que sempre negou estar envolvido, aproveitou para ganhar destaque no cenário político.

A milícia apoiada pelo Irão é a única fação que não abandonou o arsenal militar após a guerra civil.

Quando Hariri morreu, o filho Saad entrou na política. Foi ele próprio primeiro-ministro do Líbano várias vezes, mas nunca alcançou a estatura do pai.

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Dia em Beirute começou com confrontos entre manifestantes

Os cortes de energia no Líbano, cada vez mais frequentes num país mergulhado numa crise económica, levaram esta terça-feira a confrontos entre manifestantes, que tentaram tomar de assalto o Ministério da Energia libanês, e a polícia antimotim.

O racionamento da energia elétrica dura há décadas no Líbano, onde o setor da eletricidade constitui o símbolo da má administração dos serviços públicos e da corrupção de que a classe política é acusada.

No entanto, desde junho, os cortes de energia tornaram-se ainda mais frequentes e com maior amplitude, pois chegaram a atingir 20 horas por dia, sobretudo em dias de calor tórrido.

Esta terça-feira, um grupo de manifestantes conseguiu romper o cordão de segurança em torno da sede do Ministério da Energia e acampou brevemente no pátio externo, segundo testemunhou a agência noticiosa France-Presse (AFP).

Outros manifestantes foram impedidos pelas forças antimotim, alguns deles atingidos com bastões. Logo depois, vários manifestantes, irados, cortaram brevemente a estrada que leva ao ministério.

"A vossa presença vai mergulhar o Líbano na obscuridade", insistiu um porta-voz dos manifestantes, apelando ainda à demissão do ministro da Energia.

"Estamos aqui porque este é o primeiro ninho de corrupção", disse à AFP um manifestante, assegurando que a "solução" da crise passa pela "partida do conjunto" da classe dirigente.

Pouco depois do início da tarde, apenas um número reduzido de manifestantes permanecia diante do ministério.

Face aos cortes de energia elétrica que duram desde a guerra civil libanesa - que durou de 1975 a 1990 - os habitantes viraram-se para geradores privados.

O setor da energia, nomeadamente a empresa pública Eletricidade do Líbano (EDL), tem sido objeto de muitas suspeitas de corrupção e constitui um buraco financeiro para o Estado, que, segundo a AFP, já custou 40.000 milhões de dólares (cerca de 34.000 milhões de euros) ao Tesouro.

O Líbano está classificado entre os 42 Estados mais corruptos do mundo, segundo a organização não-governamental Transparência Internacional (TI).

O país atravessa a sua pior crise económica em décadas, marcada por uma depreciação da moeda sem precedentes, hiperinflação, demissões em massa e restrições bancárias drásticas, que alimentam há vários meses o descontentamento social.

Há uma semana, após meses de relativa calma, Israel disse que frustrou um ataque "terrorista" e abriu fogo contra homens que cruzaram a "Linha Azul" entre o Líbano e Israel.

Após vários planos de reforma previstos para o setor energético apresentados depois da guerra civil, as medidas nunca foram aplicadas.

A reforma da EDL constitui uma das principais reivindicações das instituições internacionais e dos países doadores para ajudar o Líbano sair de uma crise económica sem precedentes, marcada por uma depreciação inédita da moeda e que lançou mais de metade da população na pobreza.

Segundo um relatório da consultora internacional McKinsey, o Líbano tem a quarta pior rede elétrica do mundo.

*atualizado às 07.50 de 5 de agosto

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