Vídeo-selfies, Bíblia como património e exorcismo no gabinete. O ano legislativo no Brasil começou

Na primeira sessão da nova legislatura foram apresentados 327 projetos de lei, mais do dobro dos aprovados em plenário ao longo de 2018. Os deputados novatos assumiram, como se previa, o protagonismo

Parecia o início de uma disputada maratona mas eram afinal os parlamentares brasileiros, na primeira sessão da legislatura que ontem começou na Câmara dos Deputados, em Brasília, a acotovelarem-se para chegar em primeiro lugar à mesa diretora da câmara e garantir que a sua proposta ganhasse o simbólico prémio de projeto de lei número um do novo ciclo político. No total, 327 projetos foram entregues em poucos minutos, mais do dobro dos 149 aprovados em plenário ao longo de 2018, sintoma de que havia muitos novatos entusiasmados na Câmara dos Deputados - são 243 novos parlamentares, 47,3% do total.

Entre eles, Joice Hasselmann, do PSL de Jair Bolsonaro, que tinha assessores na fila desde as 5 da manhã, 10 horas antes do início da sessão. Mas mesmo com tanta precaução, a deputada de primeira viagem perdeu a corrida - não importa, ela seria, como sempre, notícia lá mais para a frente. Coube, afinal, ao Pastor Sargento Isidório, do PR, outro estreante, a honra de ser o autor do primeiro projeto de lei de 2019. Isidório, que se proclama ex-gay graças à palavra de Deus, protocolou uma proposta que visa tornar a Bíblia património nacional do Brasil e cultural e imaterial da humanidade. Do projeto consta ainda a proibição de que o seu nome seja usado noutros livros - do tipo "A Bíblia do Vinho" ou "A Bíblia do Futebol Brasileiro".

O ex-gay Isidório não foi o primeiro da fila. Mas Carla Zambelli, outra novata do PSL, ao saber o que constava da proposta do pastor e sargento - duas atividades com potencial eleitoral fortíssimo no Brasil de hoje - comoveu-se e cedeu-lhe passagem. Zambelli, que foi líder do movimento "Nas Ruas", que pedia o impeachment de Dilma Rousseff, e é monárquica desde o ano passado, após conversa com herdeiros da família imperial brasileira, já fora notícia logo após a eleição. Foi ela quem herdou, a seu pedido, o gabinete de Bolsonaro na câmara - pediu até ao atual presidente para continuar a usar os quadros com a fotografia de todos os chefes de estado durante a ditadura militar, a que acrescentou a bandeira de Israel.

Mas, por falar em gabinetes, Joice Hasselmann tornou-se notícia ao publicar um vídeo no seu, ao lado de pastores, a efetuar um culto inter-religioso para exorcizar o espaço. Em causa, o facto de nos anos 80 aquele lugar ter sido ocupado pelo então deputado constituinte Lula da Silva. O primeiro projeto de lei dela foi proibir o uso de "vossa excelência" entre os deputados e senadores "porque vossa excelência é o povo brasileiro"

A jornalista de formação Hasselmann, que se autointitula "Bolsonaro de saias", foi despedida da revista Veja em 2014 e punida pelo conselho de ética do sindicato da categoria do estado do Paraná, após 23 companheiros de trabalho de diversos veículos de comunicação, incluindo da própria Veja, a terem acusado de 65 plágios em reportagens assinadas por 42 profissionais diferentes. Já depois de eleita, com votação recorde entre as mulheres, chamou a atenção ao envolver-se em disputava verbal com Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, a quem acusou de ter tido votação recorde (foi o mais votado, somando homens e mulheres) graças ao apelido. Queixou-se ainda de receber em sua casa uma cabeça de porco com uma peruca loira, o que interpretou como ameaça de morte.

No meio de uma sessão com selfies e vídeo-selfies publicadas em tempo recorde nas redes sociais e uma disputa acirrada pelo microfone, outro deputado estreante do PSL, Alexandre Frota, usou a sua vez de discursar para dizer que a sua primeira medida será fiscalizar as condições dos presos da Lava-Jato.

em São Paulo

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