Vídeo de líderes mundiais a coscuvilhar. Trudeau é um "hipócrita", diz Trump

Grupo inclui Justin Trudeau, Emmanuel Macron, Boris Johnson e Mark Rutte numa conversa informal na receção no Palácio de Buckingham antes da abertura da cimeira da NATO. Presidente americano não gostou e cancelou conferência de imprensa final.

O seu nome não é referido uma única vez - pelo menos nas partes audíveis - mas será de Donald Trump que o canadiano Justin Trudeau, o francês Emmanuel Macron, o britânico Boris Johnson e o holandês Mark Rutte estão a falar num vídeo em que surgem em amena coscuvilhice durante uma receção no Palácio de Buckingham, em Londres.

O próprio Trump parece não ter tido dúvidas de que era ele o alvo da conversa. E não gostou. O presidente americano chamou "hipócrita" ao primeiro-ministro canadiano e cancelou a conferência de imprensa prevista para o final da cimeira. "Vamos voltar diretamente para casa", explicou no Twitter, acrescentando "acho que já demos muitas conferências de imprensa".

Quanto ao vídeo em si, Trump garantiu, referindo-se a Justin Trudeau: "Ele é um hipócrita. Eu até acho que ele é bom rapaz, mas disse-lhe na cara que ele não está a pagar os 2% [do PIB para a Defesa - uma das metas da NATO em que os EUA têm insistido] e acho que ele não ficou muito contente".

Questionado pelos jornalistas, Trump insistiu: "Ele não está a pagar 2% e devia estar a pagar 2%. O Canadá - eles têm dinheiro. Olhem, eu represento os EUA e acho que ele devia pagar mais do que paga, ele percebe isso... Acredito que ele não fique muito contente com isso mas as coisas são assim".

"É por isso que estás atrasado?"

Os quatro líderes estão na capital britânica para a cimeira da NATO e surgem nas imagens divulgadas pelos media internacionais - do britânico The Guardian à americana CNN - numa conversa bem-disposta.

"É por isso que estás atrasado?", pergunta Boris a Macron, antes de Trudeau interromper: "Ele atrasou-se porque teve de estar 40 minutos numa conferência de imprensa". O primeiro-ministro canadiano continua: "Sim, sim. Ele anunciou..." Mas o resto da frase perde-se, ficando claro nas imagens que é interrompido por Macron, de costas no vídeo e cujas palavras não são audíveis.

Se é verdade que nunca referem o nome da pessoa à qual se referem, é muito provável que seja Trump. Afinal, o presidente americano é famoso pelas suas longas conferências de imprensa. Ainda na terça-feira esteve durante 50 minutos a responder às perguntas dos jornalistas.

O vídeo tem depois um corte e quando a imagem volta, Trudeau diz ao grupo: "Viram a sua equipa ficar de queixo caído". Na conferência de imprensa no final da cimeira, Trudeau confirmou que estavam mesmo a falar sobre Trump. "Na noite passada fiz uma referência ao facto de ter havido uma conferência de imprensa não agendada antes do meu encontro com o presidente Trump. Fiquei feliz de participar nela, mas foi com certeza notável", garantiu o primeiro-ministro canadiano aos jornalistas.

Desvalorizando o facto de este episódio poder prejudicar as relações entre os EUA e o Canadá, Trudeau explicou ainda: "Todos os líderes têm equipas que de vez em quando ficam de queixo caído perante alguma surpresa, como este vídeo em si, por exemplo".

Quem parece não partilhar da opinião de Trudeau é Boris Johnson. No final da cimeira, questionado pelos jornalistas presentes nos arredores de Londres, o primeiro-ministro britânico negou que estivessem a gozar com Trump. "Não, isso é um disparate completo. Não faço ideia de onde é que surgiu essa ideia".

"Os EUA são o fiador, um grande contribuinte da NATO, há 70 anos que têm sido um pilar de estabilidade para a nossa segurança coletiva", afirmou, lembrando a solidariedade demonstrada com o Reino Unido no ano passado, quando expulsou diplomatas russos em retaliação pelo ataque químico em Salisbury contra um antigo agente secreto, Sergei Skripal.

Divergências antes da cimeira

Inicialmente divulgado pela emissora canadiana CBC, o vídeo surge num momento em que as tensões entre líderes da NATO são evidentes.

Na véspera da cimeira, Trump e Macron encontraram-se em Londres, mas as diferenças superaram o espírito de cooperação que os dois países aliados deveriam demonstrar. A reunião realizou-se pouco depois de Trump ter comentado a entrevista de Macron à The Economist, na qual o francês dissera que a organização está em "morte cerebral": "Penso que é bastante insultuosa para muitas forças diferentes. É uma frase dura, embora quando se faz uma declaração dessas, que é muito, muito desagradável para os 28 países, isso também os inclui", disse Trump em relação aos franceses.

Ao lado de Trump, o chefe de Estado francês manteve a sua ideia e voltou a explicar que a sua entrevista foi uma chamada de atenção porque a NATO precisa de se definir quanto aos seus objetivos. E deu outra vez como exemplo a Turquia, tendo acusado Ancara de patrocinar o Estado Islâmico. "Quando olho para a Turquia, eles estão a lutar contra aqueles que combateram connosco contra o Estado Islâmico [EI] e por vezes trabalham com intermediários do Estado Islâmico", disse Macron.

Trump saiu em defesa da Turquia, com que tem "uma relação muito boa". Sobre a possibilidade de Washington avançar com sanções económicas àquele país por ter optado pela compra de equipamento militar russo - o sistema antimíssil S-400 -, deixou um "vamos ver" antes de responsabilizar o seu antecessor, Barack Obama, pela escolha de Ancara.

Os líderes mundiais foram recebidos pela Rainha Isabel II no palácio de Buckingham na terça-feira à noite. A cimeira da NATO nos arredores de Londres marcou os 70 anos da Aliança Atlântica.

Final diplomático

cimeira anual da NATO, no ano em que comemora 70 anos e marcada pelos desentendimentos entre os países membros, encerrou de forma diplomática. O presidente turco Recep Tayyip Erdogan não levou a ameaça de bloquear os planos de defesa do Báltico e da Polónia até às últimas consequências e o comunicado final conclui em tom otimista. "Numa época de desafios, somos mais fortes como uma Aliança e os nossos povos mais seguros. Agimos hoje para assegurar que a NATO garanta as liberdades, valores e segurança para as gerações vindouras."

A cedência da Turquia foi elogiada pela Lituânia. "Este é um grande feito não só para o nosso país, mas para toda a região, porque garante a segurança dos nossos cidadãos", afirmou em comunicado o presidente lituano, Gitanas Nauseda.

No final da cimeira, que acabou por ser eclipsada pelas reuniões preparatórias de véspera, a NATO emitiu um comunicado na qual os países membros reafirmam "o vínculo transatlântico duradouro entre a Europa e a América do Norte, a nossa adesão aos objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas e o nosso compromisso solene, consagrado no artigo 5.º do Tratado de Washington, de que um ataque contra um aliado será considerado um ataque contra todos nós".

A ameaça russa e o desafio chinês

A relação com os outros atores internacionais não ficou de fora. Em relação a Moscovo -- um pouco a exemplo do que defende a França --, a Aliança afirma estar "aberta ao diálogo e a uma relação construtiva com a Rússia quando as ações da Rússia tornarem-no possível". No entanto, declara que as "ações agressivas da Rússia constituem uma ameaça à segurança euro-atlântica; e quanto a Pequim, reconhece que a "influência crescente e as políticas internacionais da China são ao mesmo tempo oportunidades e desafios".

Os países membros convidaram o secretário-geral Jens Stoltenberg a realizar "um processo de reflexão" com o objetivo de "reforçar ainda mais a dimensão política da NATO, incluindo o processo de consultas".

Sobre a partilha de custos da organização e a meta do investimento de cada país equivaler a 2% do PIB, o comunicado congratula-se pelo facto de os gastos (sem contar com os EUA) subirem pelo quinto ano consecutivo. "Estamos a fazer bons progressos. Devemos e iremos fazer mais", lê-se.

Com César Avó

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