Trump venceu. E agora Europa?

UE quer saber se EUA vão deixar de ser o garante da sua segurança - via NATO - e se vai haver problemas a nível comercial. Juncker e Tusk convidam Trump para cimeira UE-EUA. MNEs dos 28 reúnem-se no domingo, em Bruxelas, num jantar informal

A UE tentou, mas não conseguiu, disfarçar ontem o nervosismo causado pela eleição de Donald Trump como presidente dos EUA (tal como aconteceu quando o Syriza chegou ao poder na Grécia ou quando o brexit venceu no referendo de junho no Reino Unido). Os EUA são o maior parceiro comercial do bloco europeu e há várias décadas o garante da sua segurança, no quadro da NATO, aliança forjada durante a Guerra Fria, para a qual os americanos são os maiores contribuintes. Ora, não só o republicano se manifestou, durante a campanha, contra o novo tratado comercial transatlântico que está a ser negociado, como ameaçou deixar de financiar a NATO. Mas uma coisa é a campanha eleitoral, outra coisa é estar no poder. E nos EUA. Por isso, os europeus agiram rápido no sentido de obter uma clarificação por parte no novo inquilino da Casa Branca. Precisam saber o que fará Trump para decidir o que fará em seguida a UE.

"Enviamos as nossas sinceras felicitações pela eleição do 45.º presidente dos Estados Unidos. Aproveitamos a oportunidade para convidá-lo a visitar a Europa para a realização de uma cimeira entre a UE e os EUA o quanto antes", escreveram ontem os presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu, respetivamente, Jean-Claude Juncker e Donald Tusk, numa carta conjunta que endereçaram a Donald Trump e que foi divulgada no Twitter. Na missiva, os dois líderes sublinharam a importância das boas relações entre os dois lados do Atlântico. "É hoje mais importante do que nunca fortalecer as relações transatlânticas. Só a cooperar de forma estreita é que a UE e os EUA continuarão a fazer a diferença na resposta a desafios sem precedentes como o Estado Islâmico, a soberania e a integridade territorial da Ucrânia, as alterações climáticas e as migrações".

"Trump foi eleito. A Europa terá que trabalhar com ele. É um facto. Mas dele só se sabe o que foi dizendo ao longo da campanha eleitoral, com declarações incoerentes, fragmentadas e contraditórias. Não sabemos, na verdade, o que vai fazer. Ele próprio ainda não definiu muito bem as suas políticas e é importante ver quem será a sua equipa. Só aí a Europa saberá com o que pode lidar. A Europa vai ter que perceber que tem que contar consigo própria", afirma ao DN Paulo de Almeida Sande, ex-diretor do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal. Para uma primeira discussão, a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, a pedido da Alemanha, convidou os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE para um jantar informal, no domingo à noite, em Bruxelas, antes da reunião oficial que está marcada para segunda-feira.

O eixo franco-alemão não escondia ontem as suas reticências face à eleição do multimilionário para a Casa Branca. "Abre um período de incerteza", disse o presidente francês François Hollande, acrescentando que "estão em causa a paz, a luta contra o terrorismo, a situação no Médio Oriente, as relações económicas e a preservação do planeta". Hollande pediu, ainda, que haja "uma Europa unida capaz de expressar-se". A chanceler alemã, Angela Merkel, lembrou, de forma contundente, que "a Alemanha e a América estão ligadas por valores como a democracia, a liberdade, o respeito pela lei e a dignidade do homem, independentemente da região, cor da pele, religião, género, orientação sexual e visões políticas". O Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), que chegou a ser classificado por Trump como "uma loucura que não deveria acontecer", tem sido alvo de forte contestação nalguns países da Europa. Como a França. É, porém, de grande interesse para Alemanha, que, em 2015, viu os EUA tornarem-se o seu principal parceiro a nível comercial.

"Esta eleição pode criar uma oportunidade de a UE reforçar a sua integração, tanto a nível económico como de Defesa", recorda Paulo de Almeida Sande, depois de, durante a campanha eleitoral, Trump ter ameaçado cortar o financiamento à NATO por achar que os outros países membros devem aumentar as suas contribuições para a aliança. "A Europa tem políticas mas não tem instrumentos para elas, como se viu na crise financeira ou dos refugiados. Também na questão da Defesa, com uma ameaça no flanco leste da UE, a Europa não consegue responder. A UE é liberdade e segurança. Se um dos pilares falha há um problema", sublinha, referindo-se ao facto de a política europeia de defesa numa ter passado da teoria à prática ao longo de tantos anos. Efetivamente, através da NATO, os europeus sempre estiveram protegidos pelo guarda-chuva dos EUA. Mas as ameaças de Trump, somadas à simpatia - recíproca - em relação ao regime russo de Vladimir Putin, deixa muitos países europeus, sobretudo os da Europa de Leste, com os nervos à flor da pele. A NATO tem 28 Estados membros (nem todos são da UE).

"A política europeia de defesa encontra-se no meio da crise do brexit", lembra, por seu lado, António Costa Pinto, professor da Universidade de Lisboa. Recorde-se que Trump apoia o brexit e que o líder do Ukip, Nigel Farage, foi convidado para os seus comícios. Ontem o eurodeputado eurocético foi um dos que mais elogiou a vitória do republicano, a par da líder da Frente Nacional Marine Le Pen ou do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Saindo o Reino Unido da UE os europeus perderiam um dos pilares da defesa europeia. Restaria a única potência militar da Zona Euro: a França. E uma opção chamada Alemanha. "Vai a Alemanha tornar-se uma potência militar ou não?", questiona o politólogo, numa altura em que a direita populista sobe nas intenções de voto para as legislativas alemãs de 2017 (num país que tem o trauma de duas guerras mundiais).

E face à subida de partidos e movimentos populistas, que agora rejubilam com a vitória de um Trump protecionista e isolacionista, como iriam os líderes europeus convencer as opiniões públicas de que é preciso pagar mais para os orçamentos da Defesa no quadro da NATO ou mesmo a UE? "Não é prudente que líderes europeus pensem que tudo pode continuar como está. Durante muitos anos houve uma mão invisível que garantia a segurança do continente europeu. Agora, com a eleição de Trump, essa mão invisível está a desaparecer. Os líderes europeus, que têm pela frente os desafios das suas vidas, terão que explicar às suas sociedades quem é que tem que pagar", alerta Miguel Monjardino, professor da Universidade Católica. Pode o momento Trump replicar-se pela Europa, em 2017, nas eleições francesas, holandesas e alemãs? "Se Trump, sem experiência, consegue, Le Pen, com mais experiência, pensa que chegou a sua hora. Caminhamos para situações de grande volatilidade a nível europeu", resume este professor de Relações Internacionais.

UNIÃO EUROPEIA E ESTADOS UNIDOS:
O QUE ESTÁ EM CAUSA

TTIP
Este acordo transatlântico visa criar a maior zona de livre comércio do mundo. EUA e UE somam 800 milhões de habitantes e os benefícios estimados para os europeus seriam de 119 mil milhões de euros; para os americanos de 95 mil milhões de dólares. Falta ver se Trump mata ou não o acordo quando estiver na Casa Branca

NATO
Organização multilateral criada em 1949 no contexto da Guerra Fria, tem hoje 28 Estados membros. Portugal é um dos fundadores. EUA têm o maior exército, a Turquia tem o segundo. Americanos asseguram sozinhos 72% do total da despesa da NATO. Muitos dos outros países não cumprem o mínimo de 2% do PIB em despesas militares como é requerido

Populismos
Vitória de Donald Trump encoraja populistas na Europa, como a Frente Nacional em França, o Partido da Liberdade na Holanda ou o Alternativa para a Alemanha

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