Trump sugere que pode despedir Fauci após ser reeleito

Multidão exigiu despedimento do maior especialista dos Estados Unidos em doenças infecciosas e presidente mostrou-se disposto em fazer-lhe a vontade

Em comício na Florida, Donald Trump não ficou indiferente a um grito da multidão: "Fire Fauci!" [Despeça Fauci!]. E agradeceu o conselho.

O presidente dos Estados Unidos tem estado em rota de colisão com aquele que é o maior especialista dos Estados Unidos em doenças infecciosas e sugeriu que pode mesmo despedi-lo após as eleições presidenciais desta terça-feira.

"Não contem a ninguém, mas deixem-me esperar até um pouco depois das eleições", deixou escapar Trump, que recebeu aplausos. "Agradeço o conselho", acrescentou, citado pela CNN.

Mais tarde, Trump disse que Anthony Fauci é um "tipo porreiro", mas que "se enganou muito".

A maior parte da multidão presente no comício não usava máscaras, mas nem assim o presidente dos Estados Unidos se privou de fazer comícios em alguns dos estados em que a crise sanitária mais se faz sentir, acreditando que a sua mensagem de reabertura da económica vai cativar eleitores.

Os comentários de Trump foram feitos depois de Fauci ter criticado a resposta do governo norte-americano à pandemia por várias vezes, a última das quais no domingo, quando até sugeriu ao Washington Post que o adversário político de Trump, o democrata Joe Biden, estava a levar a sério a pandemia.

Na passada quarta-feira, durante uma conferência virtual organizada pela Universidade de Melbourne, Fauci elogiou os esforços da Austrália e da Nova Zelândia contra a pandemia, admitindo que não pode dizer o mesmo do seu país.

"Os números falam por si", disse, referindo-se aos Estados Unidos, onde as máscaras faciais, considerado um elemento-chave na prevenção da transmissão, "quase se tornaram uma declaração política", defendeu.

"Na verdade, as pessoas são ridicularizadas por usarem máscara. Depende do lado particular do espetro político em que se encontram, o que é muito doloroso para mim como médico, cientista e funcionário da saúde pública", frisou.

Nos Estados Unidos, com uma forte polarização sobre as políticas relativas à covid-19 tomadas pela administração de Donald Trump, existem também movimentos anti-vacina.

Na opinião de Fauci, este "ceticismo" é "parcialmente alimentado pelos sinais mistos enviados pelo (...) Governo, que não têm sido muito úteis", num contexto em que a tarefa de estabelecer uma política unificada sobre a pandemia é também dificultada pela independência de cada estado na tomada de decisões.

Fauci disse que o problema das estratégias pandémicas díspares se tornou evidente quando os Estados Unidos tentaram reabrir a economia, sem necessariamente seguir recomendações sobre como fazê-lo com segurança.

"Temos de tentar articular a importância de caminhar nessa fina linha entre manter a saúde pública sem prejudicar a economia", disse.

O alto funcionário público norte-americano, que foi recentemente atacado por Trump, que disse que "as pessoas estão cansadas de covid-19 e de ouvir Fauci e todos estes idiotas", também defendeu a sua independência como cientista.

"Quando se está no mesmo pódio que os políticos, não se deve ter medo de dizer a alguém algo que eles não vão gostar de ouvir", afirmou Fauci.

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