Trump e Putin à procura de pontos de acordo em Hamburgo

Encontro durou mais de duas horas. Interferência nas presidenciais dos EUA foi tema forte. Só Coreia do Norte dividiu EUA e Rússia.

Foram um Donald Trump e um Vladimir Putin aparentemente descontraídos que se encontraram num momento informal à margem da cimeira do G20, que hoje termina na cidade alemã de Hamburgo. Ambos trocaram um forte aperto de mão, reforçado do lado do presidente americano com a sua mão esquerda a segurar o braço direito do dirigente russo.

As declarações que proferiram, antes de um encontro à porta fechada e de carácter bastante restrito, refletiram uma impressão de que os presidentes dos Estados Unidos e da Federação Russa se mostravam dispostos a abrir um novo capítulo nas relações bilaterais entre os dois países, marcadas nos tempos recentes por vários pontos de tensão. De que são principais exemplos as suspeitas de interferência de piratas informáticos russos nas presidenciais americanas e as posições divergentes de Washington e Moscovo na guerra civil na Síria.

No encontro de Trump e Putin estiveram apenas presentes o secretário de Estado Rex Tillerson e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, e dois intérpretes. A restrição ao número de presentes partiu do lado americano para evitar fugas de informações ou a divulgação de versões contraditórias sobre o sucedido no encontro, escrevia esta sexta-feira o The New York Times, citando fonte da administração Trump. Embora ambos os dirigentes já tivessem falado várias vezes ao telefone, este foi o seu primeiro encontro, facto destacado pelo dirigente russo para quem é essencial um cara-a-cara se se quer resolver os problemas internacionais.

O encontro durou mais de duas horas - 135 minutos, a previsão inicial era a de que seria muito mais breve - e as informações surgidas no final indicavam que a questão da interferência russa nas presidenciais de novembro de 2016 nos EUA foi abordada "de forma demorada", afirmou Tillerson. A questão da Síria esteve igualmente em discussão, com o secretário de Estado dos EUA a dizer que "haverá uma transição" naquele país, deixando implícito que, mais tarde ou mais cedo, Bashar al-Assad deixará o poder. Uma afirmação não muito consentânea com aquilo que tem sido até agora a posição de Moscovo sobre o desenho do futuro político na Síria. Quanto ao conflito na Síria, foi acordado entre os EUA e a Rússia a entrada em vigor de um cessar-fogo para amanhã no Sudoeste do país, envolvendo a Jordânia, numa tentativa de gerar uma atmosfera de confiança que abra caminho a novos passos políticos.

Coreia do Norte e Ucrânia

Se na crise ucraniana, pareceu existir consonância entre americanos e russos, quanto ao problema do nuclear norte-coreano, Tillerson admitiu que ambos os lados "têm posições algo divergentes" quanto a possíveis formas de solução, mas sem elaborar muito mais. O conflito no Leste da Ucrânia foi também abordado, tendo ficado decidido que uma delegação americana visitará as regiões sob controlo dos separatistas apoiados por Moscovo.

Ainda nas palavras de Tillerson, a questão da interferência russa foi suscitada "mais de uma vez" por Trump. Alguns media americanos tinham sugerido antes da cimeira que o presidente poderia não considerar o tema na conversa com o seu homólogo russo, recordando que Trump sempre se mostrou pouco entusiástico em subscrever na íntegra as conclusões dos serviços de informações do seu país sobre provas da ação de piratas informáticos russos no processo eleitoral de novembro de 2016.

A cimeira de Hamburgo ficou marcada por uma série de violentas manifestações, que levaram ao reforço do dispositivo policial mobilizado para a cidade e que era de mais de 20 mil efetivos. Quer sexta-feira quer no dia anterior, manifestantes anticapitalistas desfilaram, envolvendo-se, por vezes, em confrontos com as forças de segurança.

Ao final do dia, as forças de segurança tinham efetuado mais de 70 detenções e havia registo de cerca de 160 polícias feridos e de 11 manifestantes. Um resultado dos protestos, que mobilizaram dezenas de milhares de pessoas, foi o de que, perante o caos causado nas ruas de Hamburgo, a primeira-dama dos EUA, Melania Trump, esteve impedida de deixar o local onde se encontra durante quase todo o dia, não participando nas iniciativas paralelas à cimeira. Só ao final do dia se juntou ao presidente para o jantar de gala que encerrou o primeiro dia da cimeira do G20.

Uma cimeira de que à hora de fecho desta edição se esperava ainda o comunicado final. Antecipando difíceis ou impossíveis consensos, a chanceler Angela Merkel afirmou ao final do dia que os responsáveis pela elaboração do documento iriam ter "uma longa noite de trabalho pela frente".

Um dos pontos de atrito seria a questão do comércio livre, além do Acordo de Paris sobre o clima, em que o presidente dos EUA se tem mostrado particularmente crítico, insistindo numa política de contornos protecionistas. Neste capítulo, o presidente do México, Enrique Pena Nieto, que esta sexta-feira se encontrou pela primeira vez com Trump, referiu o próximo 16 de agosto como data para o início do processo de renegociação do tratado de livre comércio da América do Norte (NAFTA, na sigla em inglês). O tratado sempre foi criticado pelo presidente dos EUA, considerando-o injusto para o seu país.

Noutro ponto de atrito com o México, a questão da construção de um muro na fronteira comum entre os dois países, Trump continua a insistir na construção deste e no seu pagamento pelas autoridades mexicanas.

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