Trump contava usar na campanha emails filtrados pela WikiLeaks

Relatório Mueller, de 400 páginas, diz que, em 2016, a campanha do presidente republicano aproveitou emails roubados por hackers russos à campanha democrata e queria basear neles a sua estratégia de ataque contra a rival de Trump, Hillary Clinton, na corrida à Casa Branca

Quando Julian Assange foi preso, no passado dia 11, após quase sete anos de refúgio na embaixada do Equador em Londres, Donald Trump apressou-se a dizer que nada sabia sobre o que era a WikiLeaks. "Não sei nada sobre a WikiLeaks. Não é a minha cena, Não tenho uma opinião", disse o presidente dos EUA, nesse mesmo dia, na Sala Oval, acrescentando apenas que só sabe "que tem alguma coisa a ver com Julian Assange".

O certo é que Trump, ainda candidato à Casa Branca, usou por várias vezes as revelações da WikiLeaks em relação à campanha da adversária, de Hillary Clinton, tendo publicado 11 tweets sobre a WikiLeaks e outros três sobre Assange desde julho de 2016. Essa foi a altura em que a WikiLeaks começou a divulgar os emails roubados aos democratas. Em comícios, o candidato dos republicanos à presidência chegou a dizer "Adoro a WikiLeaks" e ainda "Rússia, se me estás a ouvir, espero que consigas encontrar os 30 mil emails que ainda estão desaparecidos".

Segundo o relatório do procurador especial Robert Mueller, que esta quinta-feira foi divulgado, com partes censuradas, "depois de a WikiLeaks ter divulgado emails politicamente comprometedores para o Partido Democrata, roubados pela Rússia, Trump expressou, publicamente, ceticismo em relação à responsabilidade da Rússia. Mas, em privado, ele e outros responsáveis da sua campanha procuraram obter informações [censurado] sobre as filtrações planeadas pela WikiLeaks".

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O documento, de 400 páginas, divididas por dois volumes, é o resultado de 22 meses de investigações por parte de Mueller. Na apresentação do relatório, esta quinta-feira de manhã, o procurador-geral dos Estados Unidos, William Barr, afirmou: "o governo russo patrocinou esforços para interferir nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, mas não contou com a campanha de Trump ou de outros americanos para apoiar esses esforços".

"Em março de 2016, o GRU [secreta russa] começou a piratear as contas de email dos assistentes de Hillary Clinton e voluntários de campanha, incluindo o do seu diretor de campanha John Podesta. Em abril de 2016, o GRU pirateou a rede de computadores do Comité Nacional Democrata (DNC) e do Comité de Campanha Democrata do Congresso. O GRU roubou milhares de documentos de emails e contas comprometidas. Em meados de junho de 2016, quando o DNC denunciou os russos, o GRU começou a disseminar os materiais roubados através das contas fictícias online DCLeaks e Guccifer 2.0. O GRU passou depois o material à organização WikiLeaks", diz o relatório, explicando como tudo começou.

"Numa tentativa de expandir a sua interferência nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA, o GRU transferiu muitos dos documentos que roubou do DNC [Comité Nacional Democrata] e do presidente da campanha de Clinton para a WikiLeaks. Agentes do GRU usaram personagens como DCLeaks e Guccifer 2.0 para comunicar com a WikiLeaks através do Twitter, por mensagens privadas e por canais encriptados, incluindo através do sistema de comunicações privadas usado pela WikiLeaks", lê-se no relatório Mueller, na parte relativa ao uso da WikiLeaks.

Recorde-se que o cofundador desta organização, Julian Assange, é alvo de um pedido de extradição para os EUA, que será analisado pela justiça britânica no dia 2 de maio. O australiano é formalmente acusado nos EUA de associação criminosa com vista a cometer "pirataria informática", punível com uma pena máxima de cinco anos de prisão, segundo indicou o Departamento de Justiça norte-americano. Assange, de 47 anos, é também acusado de ter ajudado a ex-analista dos serviços secretos norte-americanos Chelsea Manning a obter uma palavra-passe para aceder a milhares de documentos classificados como segredos de defesa. Esses cables foram divulgados pela WikiLeaks entre 2010 e 2011 e o escândalo foi mundial.

"A campanha de Trump mostrou interesse nas filtrações da WikiLeaks de material roubado através de pirataria informática durante o verão e o inverno de 2016", diz o relatório Mueller, acrescentando depois: "Na campanha de Trump, muitos dos seus assistentes reagiram, com entusiasmo, às notícias sobre as filtrações. [Censurado] discutiu com membros da campanha que a WikiLeaks iria libertar material pirateado. Algumas testemunhas indicaram que o próprio Trump discutiu a hipótese de as próximas filtrações [censurado]. Michael Cohen, então vice-presidente executivo da organização Trump e também conselheiro especial de Trump, recorda-se de ouvir [censurado]. Cohen recorda-se que respondeu, "oh, bom, muito bem".

O relatório descreve como Paul Manafort, ex-diretor de campanha de Trump, atualmente a cumprir pena de prisão, bem como o seu braço direito, Rick Gates, estiveram sob constante pressão para obter mais detalhes sobre as filtrações da WikiLeaks depois de a organização de Assange ter libertado os primeiro emails dos democratas de Hillary Clinton em julho de 2016. "O vice-diretor de campanha Rick Gates disse que Manafort estava a ser pressionado sobre [censurado] informação e que Manafort instruiu Gates [censurado] por atualizações sob o estado das coisas e sobre possíveis futuras filtrações. Pela mesma altura, Gates estava com Trump numa viagem para o aeroporto de [censurado] e pouco depois, quando a chamada terminou, Trump disse a Gates que iriam aparecer mais filtrações comprometedoras. [Censurado] discutiram no interior da campanha, no verão de 2016, a campanha estava a planear uma estratégia de comunicação baseada na possível filtração dos emails de Clinton por parte da WikiLeaks"

Gates, diz o relatório ainda, "recorda-se de o candidato Trump estar muito frustrado por os emails de Clinton não terem sido encontrados". E constata que "Donald Trump Jr. [filho de Trump] teve comunicações eletrónicas com a WikiLeaks durante o período da campanha".

As conclusões do relatório Mueller foram esta manhã apresentado por Barr, nomeado por Trump, primeiro à imprensa. Mas só posteriormente foi disponibilizado, aos membros do Congresso norte-americano, ao público em geral. Isto apesar de os advogados de Trump ter tido acesso prévio ao documento que iria ser disponibilizado através da internet. "O relatório passou em revista dez episódios que envolvem o presidente e discute as potenciais teorias legais que ligam essas ações a elementos passíveis de serem considerados crime de obstrução à justiça", declarou o procurador-geral aos jornalistas, sublinhando que ele e o procurador-geral adjunto, Rod Rosestein, concluíram que: "As provas obtidas pelo Conselho Especial não são suficientes para estabelecer que o presidente cometeu o crime de obstrução à justiça". Mueller, por seu lado, não tinha ido ao ponto de descartar a existência de condições para acusar o presidente de obstrução à justiça.

Por tudo isto, os democratas, exigem que o procurador especial Mueller testemunhe, publicamente, no Congresso, sobre o dossiê da alegada interferência russa nas eleições presidenciais que deram a vitória a Trump em 2016. "Acreditamos que a única forma de restaurar a confiança dos cidadãos nas conclusões da investigação do procurador especial é o procurador especial Mueller dar um testemunho público, perante a Câmara e o Senado, o mais rapidamente possível. O povo americano merece ouvir a verdade", afirmam Nancy Pelosi e Chuck Schumer, líderes dos democratas na câmara dos Representantes e no Senado, respetivamente, num comunicado conjunto divulgado esta quinta-feira. Os democratas sempre desconfiaram de Barr, nomeado por Donald Trump, em relação a este processo.

Também Jerrold Nadler, presidente da comissão de Justiça da Câmara dos Representantes, escreveu a Robert Mueller a pedir que compareça "o mais rapidamente possível" e não "depois de 23 de maio de 2019" para testemunhar sobre a investigação. Barr, por seu lado, afirmou não ter "qualquer objeção" a que Mueller "vá pessoalmente testemunha".

A equipa de advogados de Trump, Rudy Giuliani, Jay Sekulow, Jane Raskin e Martin Raskin, cantaram vitória: "Os resultados da investigação são um vitória completa para o presidente e está claro que não há matéria crime".

A investigação sobre ingerência russa na campanha para as eleições de 2016 nos EUA implicou o indiciamento de 34 pessoas, incluindo seis antigos conselheiros do presidente norte-americano: Paul Manafort, Rick Gates, George Papadopoulos, Michael Cohen, Michael Flyn e Roger Stone, além de 26 cidadãos russos. Do lado da Rússia, vários responsáveis, com o presidente russo, Vladimir Putin à cabeça, sempre negaram qualquer ingerência nas eleições americanas.

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