Taiwan elege presidente e Parlamento a pensar na China

Oposição pode obter resultado histórico, ganhando a presidência e, pela primeira vez, o governo. Pequim deixa avisos a Taipé.

"Isto não é só uma eleição. Está em causa o futuro de Taiwan", declarava recentemente um natural da ilha, a trabalhar e viver em Xangai, explicando à Reuters que iria viajar para a sua localidade de origem e votar nas eleições gerais que hoje decorrem neste território, independente de facto, mas considerado uma "província renegada" pelo regime de Pequim.

Em causa nas presidenciais e legislativas, em que votam 18 milhões de eleitores, está a eleição da candidata do Partido Democrático Progressivo (PDP, na oposição), Tsai Ing-wen, com esta formação a alcançar a maioria na Assembleia Legislativa. O regresso do PDP ao poder - tendo estado na presidência entre 2000 e 2008 com Chen Shui-bian - é visto como um fator que pode perturbar o diálogo entre Taiwan e a China continental. E assinala, por outro lado, uma estreia absoluta: Tsai será a primeira mulher na presidir a um país de língua chinesa.

As relações entre Pequim e Taipé têm-se estreitado nos últimos anos e conheceram um momento único quando o presidente cessante de Taiwan, Ma Ying-jeou, e o seu homólogo de Pequim, Xi Jinping, se encontraram em Singapura, em novembro de 2015. O diálogo político entre os dois lados do Estreito de Taiwan conheceu momentos relevantes desde a chegada de Ma Ying-jeou à presidência, em 2008. Foi sob a sua presidência que foram iniciadas as ligações aéreas diretas, assinados acordos de comércio preferencial, intensificando relações que começaram a desenvolver-se desde a chegada de Deng Xiaoping ao poder em Pequim, em 1978.

Manter o "status quo"

A candidata do PDP, Tsai Ing-wen, garantiu durante a campanha que não provocaria Pequim, defendendo aquela que é uma das bandeiras do partido: a declaração da independência de Taiwan e a afirmação de uma identidade específica da ilha face à China continental. Mas Tsai Ing-wen manteve que só a população de Taiwan deve decidir o seu futuro e apelou à República Popular da China (RPC) para contribuir para a manutenção da paz no Estreito de Taiwan, que separa a ilha da China continental. "Esperamos que as relações entre os dois lados do Estreito possam continuar a desenvolver-se de forma pacífica e, ao mesmo tempo, manter-se o status quo entre todas as partes, incluindo a China continental", afirmou ontem Tsai.

As palavras da candidata do PDP surgiram no mesmo dia em que o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da RPC, Hong Lei, advertiu que não seriam, precisamente, toleradas quaisquer tentativas de minar o "status quo", ou seja, será inaceitável para Pequim o cenário da declaração de independência de Taiwan. "Sublinhamos que nos cingimos ao princípio de "Uma Só China", opomo-nos à independência [de Taiwan] e a duas Chinas", indicou o diplomata quando interrogado sobre qual a reação da RPC à vitória da candidata do PDP.

Em junho em 2015, durante uma visita aos Estados Unidos, a candidata do PDP procurou tranquilizar os círculos dirigentes em Washington, garantindo que não faria nada que pusesse em causa o "status quo". A importância da viagem de Tsai Ing-wen aos EUA resulta do facto de este país ser o principal aliado de Taiwan e que, apesar de não manter relações diplomáticas com Taipé, responde pela defesa da ilha no quadro de uma lei aprovada pelo Congresso em 1979, após Washington ter reconhecido a RPC.

Creditada com quase 45% das intenções de voto, Tsai Ing-wen está claramente à frente do candidato do Kuomintang (KMT, Partido Nacionalista Chinês), Eric Chu, que se fica pelos 20%. Um terceiro candidato, James Soong, líder do Partido Primeiro o Povo (PPP), que advoga uma política conciliadora com Pequim e adversário declarado de uma declaração da independência, reúne 15% das intenções de voto.

O cenário de uma vitória da candidata do PDP nas presidenciais repete-se nas legislativas, prevendo-se que este partido alcance, pela primeira vez, a maioria dos 113 lugares da Assembleia Legislativa, dos quais 73 são eleitos diretamente por escrutínio uninominal, 34 em listas partidárias, com mais de 5% de votos. Os restantes seis lugares estão reservados para os representantes da população aborígene. Segundo as projeções, o PDP, que se apresenta nas legislativas coligado com um pequeno partido, pode chegar a um resultado histórico: 66 a 69 lugares. Nas legislativas de 2012, onde se apresentou também em coligação, teve 43 deputados. Por seu lado, o KMT, com 64 eleitos em 2012, deve cair para menos de 40 lugares: a menor expressão eleitoral de sempre.

Dependência e identidade

O declínio eleitoral do KMT deve-se a uma conjuntura económica menos favorável e, também aqui, às relações com a China. Para significativos setores da opinião pública, o presidente e governo cessantes tornaram Taiwan excessivamente dependente da economia chinesa e das trocas comerciais com Pequim. O que seria parte de uma estratégia para tornar inevitável, a prazo, a integração na RPC. Por outro lado, com o desaparecimento da geração que se refugiou na ilha no final dos anos 40, com o então presidente Chiang Kai-shek, derrotado pelos comunistas de Mao Tsé-Tung, não tem cessado se afirmar a consciência de uma identidade própria entre os cidadãos de Taiwan, cultural, política e social, não dependente de qualquer vínculo com a China continental.

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