Suíça domina os Alpes e inaugura o túnel ferroviário mais longo do mundo

Tem quase 60 quilómetros de comprimento e é considerado uma "obra-prima" da engenharia. Construção levou 17 anos

É o túnel ferroviário mais longo do mundo e aquele que está construído a maior profundidade, no coração dos Alpes: o Gotthard tem 57,1 quilómetros de comprimento e foi construído ao longo de 17 anos. Uma maravilha da engenharia suíça que pretende ser um símbolo da unidade europeia numa altura de divisões e fragmentação, assumem os responsáveis, que inauguram hoje a sua "obra-prima", dizem, numa cerimónia que conta com vários líderes europeus.

O Gotthard foi construído para durar um século e faz parte de um projeto suíço de infraestruturas no valor de 23 mil milhões de euros, cujo objetivo é fazer passar mercadorias e passageiros por debaixo da cordilheira dos Alpes, que divide o norte e o sul da Europa. O túnel em si - que custou mais de 10 mil milhões de euros - começa em Erstfeld, no cantão suíço de Uri, e termina em Bodio, já num cantão diferente, o Ticino. Atualmente, já existe um túnel rodoviário que passa por baixo da montanha de Saint Gotthard com quase 17 quilómetros, construído na década de 1980. Na altura, era o mais longo do mundo e permitiu aos automobilistas encurtarem o tempo de viagem entre as cidades suíças de Basileia e Chiasso.

A obra para a ferrovia, de características tipicamente suíças - um país habituado a fazer passar estradas e carris por baixo de um relevo acentuado - foi concluída dentro do prazo e não houve qualquer derrapagem no orçamento. Os eleitores suíços votaram em referendo o projeto de construção em 1992; dois anos mais tarde, decidiram apoiar um projeto de grupos ambientalistas que defendia que todos os transportes de mercadoras na Suíça deveriam passar por carris.

Peter Fueglistaler, o diretor do gabinete de transportes federal da Suíça, garante que o Gotthard é parte da identidade do país: "Para nós, conquistar os Alpes é como foi para os holandeses explorar os oceanos", sublinha.

Os comboios de alta velocidade vão levar 17 minutos a atravessar o túnel. Cerca de 260 comboios de mercadorias e 65 de passageiros deverão passar pelo Gotthard diariamente a partir do final do ano, altura em que terminam os testes. Em dezembro - data prevista para abertura ao público - a Europa ficará ligada através de uma linha ferroviária que começa nos portos de Roterdão, na Holanda, e termina a sul, em Génova, Itália. No ponto onde atinge maior profundidade, o Gotthard vai até 2,3 quilómetros debaixo de terra, com as rochas a atingirem temperaturas até aos 46 graus. Descreve uma trajetória plana e sem curvas, o que permitirá aos comboios mais pesados viajar com apenas uma locomotiva, em vez de duas ou três. Para perfurar a montanha, os engenheiros tiveram de fazer explodir 73 tipos de rochas diferentes, algumas tão duras quanto granito, outras moles como açúcar. Foram escavadas mais de 28 mil toneladas de pedra e nove trabalhadores morreram durante as obras.

Na viagem inaugural, que hoje se realiza, participarão 500 suíços, os vencedores de um concurso ao qual concorreram 130 mil participantes. Juntar-se-ão aos convidados para a ocasião, entre os quais se incluem, por exemplo, a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês François Hollande e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi. Os trabalhos ficarão concluídos totalmente só em 2020, mas a partir de dezembro os viajantes conseguirão ir de Zurique a Milão, por exemplo, em duas horas e quarenta minutos - menos uma hora do que na atualidade.

Ao tornar-se o túnel mais longo do mundo, o Gotthard vai ultrapassar o túnel japonês de Seikan, que detinha atualmente o "título" - com 53,9 quilómetros de comprimento - e empurrar para terceiro lugar do pódio o Eurotúnel, que liga França e o Reino Unido ao longo de 50,5 quilómetros por baixo do Canal da Mancha.

Com Reuters

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG